15/10/26 04:39 - Atualizado há 1 h
A digitalização brasileira mais consistente não está nas vitrines de inovação: está no condomínio. Pagamentos, controle de acesso, assembleia e comunicação diária já migraram para a tela, e o morador só percebe a infraestrutura quando ela falha.
Para o síndico, isso muda o que se cobra de um fornecedor de tecnologia: não o discurso, e sim a conta que fecha no fim do mês.
Leia o texto completo de Omar Branquinho logo abaixo!
O Brasil aprendeu a viver de forma digital antes de muitos países que costumam ditar o que é inovação. O Pix, por exemplo, movimentou cerca de R$ 28 trilhões apenas nos dez primeiros meses de 2025 e já responde por mais da metade de todas as transações de pagamento do país.
A biometria facial destrava celular, catraca e conta bancária. Documentos e assinaturas migraram para a tela sem que ninguém precisasse ser convencido.
Mas tem um local onde essa digitalização talvez fique ainda mais evidente e que raramente entra na conversa sobre tecnologia: o condomínio.
O setor é maior do que costuma parecer, e a escala fica clara no volume que roda dentro de uma única plataforma.
Só a Superlógica, plataforma de soluções para o segmento, atende mais de 130 mil condomínios, o equivalente a mais da metade do mercado endereçável no país, distribuídos por 26 estados e pelo Distrito Federal, em mais de mil cidades.
Por essa base, passam cobranças, prestação de contas, controle de acesso e a comunicação diária entre administradoras, síndicos e moradores.
Essa digitalização tem uma lógica própria.
Aqui, a tecnologia raramente chegou como símbolo de sofisticação ou status, mas para resolver problemas concretos: reduzir fraudes, desburocratizar processos, dar mais segurança a espaços de circulação intensa e tornar pagamentos mais rápidos. E permaneceu porque deu resultado.
O país se digitalizou menos por ambição futurista e mais por necessidade prática.
O WhatsApp talvez seja o exemplo mais emblemático dessa adaptação. Deixou de ser apenas um aplicativo de conversa há muito tempo e virou interfone informal, o canal pelo qual o porteiro avisa sobre a encomenda, o morador aciona a manutenção e o síndico convoca a assembleia.
Nos condomínios, ele divide espaço com os aplicativos de gestão, portais financeiros e sistemas de acesso, numa mistura entre a tecnologia formal e aquela que as pessoas já usavam por conta própria.
Os aplicativos dedicados à vida condominial seguiram o mesmo caminho do WhatsApp e já estão presentes em dezenas de milhares de prédios pelo país.
Hoje o morador aprova uma despesa, libera a entrada de um prestador ou visita, reserva o salão de festas e vota em assembleia sem sair do sofá, e boa parte nem percebe que está operando uma infraestrutura sofisticada para fazer isso. Para se ter ideia, só o Gruvi, app da casa, condomínio e vizinhança da Superlógica, já possui quase 2 milhões de usuários ativos mensais.
Essa estrutura costuma ser notada só quando falha.
Enquanto funciona, ela sai do campo de visão de quem mora e se torna trivial; aperta-se um botão no aplicativo e a encomenda é liberada, sem que ninguém pense na sequência de validações, integrações e registros que tornou aquilo possível em poucos segundos.
É o oposto da tecnologia de vitrine, que existe para ser vista. Simplesmente passa a fazer parte da infraestrutura básica do cotidiano das cidades.
O Brasil raramente aparece no imaginário global como referência em inovação do cotidiano. Talvez porque a sua tecnologia esteja menos concentrada em grandes lançamentos e mais espalhada pela infraestrutura na vida real, justamente nos lugares onde a rotina urbana precisa funcionar todo dia, sem interrupção.
O condomínio é o retrato mais fiel disso, pois é um ambiente em que segurança, dinheiro, convivência e governança dividem a mesma tela, e no qual a tecnologia é medida menos pelo discurso e mais pela conta que fecha no fim do mês.
É nesse cotidiano, mais do que nos grandes discursos sobre cidades inteligentes, que a transformação urbana brasileira está de fato acontecendo. Silenciosa, profundamente incorporada à rotina e altamente tecnológica.
(*) Omar Branquinho é Diretor de Produtos para Moradia da Superlógica. Possui formação em Engenharia de Computação pela PUC-Campinas e mais de 20 anos de experiência em empresas de tecnologia, com background em SaaS. Especializado em gestão de operações, com foco em eficiência operacional e gestão de projetos.