08/07/26 06:43 - Atualizado há 4 dias
Outro dia, desci pra retirar um pedido na portaria do meu condomínio, em Salvador. Era uma quinta-feira comum, nem começo de mês, nem semana de Black Friday.
A cena que encontrei era essa: caixas da Amazon empilhadas no chão, sacos amarelos do Mercado Livre transbordando do cesto, três caixas grandes de vinho na frente de uma escrivaninha. Em cima da escrivaninha, ainda mais pacotes. Atrás, uma prateleira inteira com encomendas esperando retirada.
Fiquei parada olhando aquilo. E pensei: eu já vi esse filme antes.
Venho da Tecnologia da Informação. Em 2019, depois de anos prestando consultoria, comecei a observar o condomínio onde eu morava, um condomínio-clube grande, e percebi algo estranho. Havia muita gente trabalhando ali: síndico, conselho, administradora, porteiros, zeladores. Mas quase tudo era manual.
A planilha do financeiro morava no computador de uma única pessoa. A comunicação com moradores acontecia em três grupos diferentes de WhatsApp. A inadimplência era controlada no olho. O síndico precisava lembrar de tudo o tempo inteiro.
Aquele incômodo virou empresa. Fundei a MyCond para atacar essa lacuna: dar à gestão condominial os sistemas que outros setores já usavam há duas décadas. Em cinco anos, chegamos a mais de três mil condomínios atendidos.
No caminho, unindo meus conhecimentos do mercado condominial aos princípios aplicados a grandes startups de alto crescimento com Customer Success (Sucesso do Cliente), criei uma metodologia de Condominocentrismo, que é colocar o condômino no centro da estratégia, com inteligência e rentabilidade.
Resolvido aquele primeiro problema, achei que poderia respirar.
Quando comecei a estudar Inteligência Artificial aplicada à operação, percebi duas coisas ao mesmo tempo.
Estamos na era da IA, mas pouca gente no nosso setor conhece o que essa tecnologia pode fazer de verdade. E essa distância entre o que existe e o que se sabe é, na minha leitura, a maior oportunidade que o mercado condominial tem nesta década.
Existem, simplificando bastante, dois grandes tipos de uso de IA no condomínio:
A diferença prática é simples: a IA consultiva responde quando chamada; a IA operacional trabalha junto, sem ser chamada. É essa segunda forma que muda a vida do síndico.
Segundo a ABComm, o e-commerce brasileiro praticamente dobrou entre 2019 e 2024. Em 2026, o brasileiro recebe em casa muito mais do que recebia há cinco anos: Mercado Livre, Shopee, Amazon, farmácia delivery, supermercado pelo app. A portaria do condomínio absorveu esse volume sem ganhar estrutura nova.
O porteiro, que foi contratado pra controlar acesso e distribuir correspondência simples, agora também recebe encomendas, registra, identifica morador, avisa, guarda, entrega e responde. Tudo manualmente, etiqueta por etiqueta.
O resultado é o que síndico sente na pele: encomenda parada gera reclamação. Reclamação chega no WhatsApp do síndico, normalmente fora do horário.
É exatamente onde a IA operacional encaixa. Não substituindo o porteiro, mas tirando dele o trabalho repetitivo que sobrou.
Quando comecei a desenvolver essa aplicação dentro da minha empresa, comecei a construir do zero, observando a rotina real da portaria de um condomínio-clube grande, com o objetivo de eliminar a digitação manual sem tirar do porteiro a função de conferência e entrega.
O fluxo, na prática, tem cinco passos:
O porteiro não digita, não busca contato, não esquece de avisar. Cada passo leva poucos segundos e toda a operação fica registrada em ordem cronológica e auditável.
A portaria do condomínio brasileiro está vivendo uma mudança silenciosa, alimentada por um hábito de consumo que não vai recuar. Quem entende isso cedo ganha tempo, evita conflito e devolve à portaria a função para qual ela foi feita.
Mas o ponto que me move é mais largo do que a portaria.
A IA bem aplicada está transformando a própria experiência de viver em condomínio: o morador avisado no momento certo, sem precisar perguntar; o síndico que dorme tranquilo sabendo que nada vai escalar fora do horário; a administradora que entrega serviço documentado, com prova em cada interação.
É essa mudança qualitativa que define o próximo ciclo do setor. E ela só acontece quando a tecnologia para de ser modismo e vira operação: silenciosa, registrada e centrada em quem mora.
(*) Ana Rita Cardoso é CEO e fundadora da MyCond, hub tecnológico de gestão condominial. Empreendedora baiana com formação em Tecnologia da Informação, desde 2019 lidera a empresa, que atende mais de três mil condomínios em todo o país. É autora do livro "Condominocentrismo — Gestão de Condomínio Centrada no Cliente" e está entre as poucas mulheres a liderar uma empresa de tecnologia para condomínios em escala nacional. Sob sua liderança, a MyCond vem aplicando inteligência artificial operacional em frentes como portaria, financeiro e atendimento, com o propósito de colocar o condômino no centro da gestão.