17/07/26 04:26 - Atualizado há 5 dias
Durante muitos anos, a gestão operacional dos condomínios evoluiu de forma lenta. Enquanto outros setores aceleravam seus processos com tecnologia, grande parte da operação predial ainda dependia de planilhas, grupos de WhatsApp, controles descentralizados e conhecimento concentrado em poucas pessoas da equipe.
Desde 2018, acompanho de perto essa transformação no mercado condominial. Em um setor historicamente marcado por processos manuais e operações reativas, fui pioneira do movimento de digitalização da operação predial no Brasil.
Ao longo desses anos, percorri mais de 150 condomínios em mais de cinco estados brasileiros participando diretamente da implementação de processos digitais dentro da rotina operacional de condomínios e administradoras.
Vivi o dia a dia das equipes operacionais, acompanhei zeladores, gestores, síndicos e fornecedores de perto, entendendo na prática como funcionam e onde quebram os processos que sustentam a operação dos edifícios.
E a verdade é que, durante muito tempo, muitos condomínios continuaram operando de forma extremamente manual.
Na prática, a manutenção acontecia quando algo quebrava, informações importantes se perdiam facilmente, evidências de execução quase nunca eram registradas e boa parte da rotina operacional dependia mais da memória humana do que de processos estruturados.
O que vi na prática foi um mercado tentando operar condomínios cada vez mais complexos utilizando ferramentas improvisadas.
Era comum encontrar:
O mercado começou a perceber que não era mais possível conduzir operações cada vez mais complexas utilizando estruturas tão frágeis.
Foi nesse contexto que iniciou-se uma aceleração importante da digitalização no setor condominial.
Administradoras passaram a buscar mais rastreabilidade. Síndicos começaram a exigir mais controle e previsibilidade. Equipes operacionais precisaram se adaptar a uma nova realidade, onde organização, histórico e visibilidade operacional passaram a ser tão importantes quanto a própria execução.
E os moradores subiram a régua na exigência em relação ao tempo de resposta ser cada vez menor.
A digitalização resolveu parte do problema. Mas a inteligência artificial acelerou essa transformação em uma velocidade que poucos imaginavam.
Nos últimos dois anos, a IA deixou de ser apenas uma tendência distante e passou a impactar diretamente os processos operacionais dos condomínios.
O que antes exigia horas de acompanhamento manual começou a ser automatizado. Informações descentralizadas passaram a ser organizadas de forma inteligente. Processos operacionais começaram a ganhar capacidade de análise, rastreabilidade e resposta em tempo real.
Se antes a entrega de dashboards e relatórios era suficiente, hoje a análise desses dados e relatórios é o que tem valor e a velocidade com que isso é feito é maior com o uso de uma IA. Isso muda completamente a lógica da operação predial.
O mercado começa a sair de um modelo baseado apenas em execução para entrar em uma nova fase: a da inteligência operacional.
Na prática, isso significa operações mais previsíveis, menos dependentes de conhecimento informal e muito mais orientadas por dados.
Chamados deixam de ficar perdidos em conversas. Manutenções passam a ter histórico consolidado. Evidências operacionais começam a ser registradas automaticamente. Gestores ganham visibilidade sobre aquilo que realmente acontece no dia a dia do condomínio.
E talvez esse seja o ponto mais importante: a IA não está substituindo síndicos, zeladores ou gestores operacionais. Ela está reduzindo o caos operacional que, durante anos, foi tratado como algo “normal” no setor.
Depois de acompanhar presencialmente centenas de operações em diferentes regiões do país, existe uma percepção que se repete em praticamente todas elas: os condomínios se tornaram mais complexos, mas muitos processos operacionais ainda permanecem presos a estruturas antigas.
Hoje, um condomínio pode ter portaria remota, controle biométrico, dezenas de fornecedores terceirizados, múltiplos contratos técnicos e uma rotina intensa de manutenção, mas ainda controlar grande parte disso pelo WhatsApp.
A tecnologia embarcada nos edifícios evoluiu rapidamente. A gestão operacional, nem sempre. E é justamente essa diferença que a inteligência artificial está escancarando. A IA acelerou a exposição de gargalos que já existiam há anos.
Os próximos anos devem consolidar uma mudança definitiva no mercado condominial.
Condomínios e administradoras que conseguirem estruturar operações mais digitais, rastreáveis e inteligentes terão mais eficiência, mais previsibilidade e menos desgaste operacional.
Já aqueles que continuarem excessivamente dependentes de controles manuais provavelmente enfrentarão cada vez mais dificuldade para lidar com a crescente complexidade da gestão predial.
A transformação digital dos condomínios já começou há alguns anos. A inteligência artificial apenas tornou impossível ignorá-la.
(*) Laura Mitterer é engenheira, especialista em gestão de manutenção predial. Há 8 anos atuando no mercado de tecnologia. É fundadora da Pipelore - Gestão predial simplificada com IA. Instagram: @lauramitterere