Amanda Accioli

Infestação de ratos em apartamento: até onde vai a empatia e onde começa a responsabilidade coletiva?

Casos de acumuladores em condomínio, que chegam ao ponto de propiciar infestação de ratos, exigem equilíbrio entre acolhimento e responsabilidade para preservar a saúde e a segurança coletiva

Por Amanda Accioli

18/06/26 01:39 - Atualizado há 1 dia


Recentemente, vivi uma situação delicada que me fez refletir profundamente sobre o papel do síndico e dos moradores diante de casos de acumuladores em condomínios.

Uma moradora idosa, que há anos vive sozinha, passou a apresentar comportamento de acumulação severa - e o resultado foi uma infestação de ratos no apartamento que ficava no andar térreo do condomínio, e que rapidamente começou a se espalhar para unidades vizinhas.

Como síndica, fui chamada às pressas. A cena era preocupante: mau cheiro, restos de alimentos, objetos empilhados até o teto e sinais claros de risco à saúde pública.

A primeira reação é humana: compaixão. Sabemos que, por trás de um caso de acúmulo, quase sempre existe uma questão emocional, psicológica ou até social. Mas, ao mesmo tempo, existe uma linha tênue entre a empatia e a omissão diante de um problema que ameaça toda a coletividade.

O papel do síndico diante de acumuladores em condomínios

Em condomínios, a responsabilidade é compartilhada. O bem-estar de todos depende da conservação de cada unidade. Quando um apartamento se transforma em um foco de pragas urbanas, como ratos, baratas ou cupins, não se trata mais de uma questão particular — é uma questão de segurança, saúde, salubridade e sanidade coletiva.

A primeira medida, nesses casos, é sempre o diálogo respeitoso. Conversei com familiares, busquei contato com a assistência social do município e expliquei a situação com cuidado, sem expor a moradora.

Mas é importante destacar que, se não houver colaboração, o condomínio pode — e deve — acionar a Vigilância Sanitária e o Ministério Público, com base no Código Civil e nas normas de convivência condominial.

Empatia e responsabilidade coletiva precisam caminhar juntas

A presença de acumuladores em condomínios é um tema sensível e ainda cercado de tabus. Muitos preferem “fechar os olhos” por pena ou medo de constrangimentos. Mas ignorar o problema não o torna menor — ao contrário, ele cresce, literalmente.

Infestações de ratos e insetos, infiltrações causadas por excesso de lixo, mau cheiro e até risco de incêndio são consequências reais e graves.

Por isso, como síndica profissional, acredito que o caminho é o equilíbrio entre humanidade e firmeza. Precisamos agir com empatia, mas também com responsabilidade administrativa. A lei está do nosso lado, e a saúde dos demais moradores precisa ser preservada.

Também é essencial envolver os condôminos. Informação é poder.

Falar abertamente sobre acúmulo compulsivo, higiene, segurança e convivência saudável ajuda a criar uma cultura de cuidado mútuo — e diminui o estigma sobre quem precisa de ajuda.

No fim, lidar com acumuladores é mais do que resolver um problema de limpeza: é um teste de solidariedade e de limites dentro da vida em comunidade. É entender que empatia não significa omissão — e que cuidar do outro também é garantir que todos vivam com dignidade, saúde e segurança.

(*) Amanda Accioli é Síndica Profissional e Advogada Condominialista, Diretora Nacional da Sindicatura da ANACON (Associação Nacional da Advocacia Condominial), Membro da Comissão Especial de Direito Condominial da OAB/SP, Síndica associada à AABIC e ao Secovi-SP. Palestrante e articulista. Instagram: @acciolicondominial | e-mail: amandaaccioli.adv@gmail.com