23/07/26 11:14 - Atualizado há 4 dias
Nos artigos anteriores desta coluna, falamos sobre a realidade invisível da administradora de condomínios e sobre a complexidade da gestão condominial. Hoje quero olhar um pouco para frente e falar sobre algo que já começa a surgir no mercado: a administradora do futuro.
Em alguns lugares, inclusive, ela já é realidade
Antes de avançarmos nessa reflexão, é importante deixar claro um ponto fundamental: o tamanho da administradora muda completamente a forma como ela opera.
Administradoras podem prestar o mesmo tipo de serviço, mas a dinâmica de gestão varia muito de acordo com a quantidade de condomínios em carteira.
Costumo dividir o mercado em quatro grandes grupos: administradoras de até 50 condomínios, de 51 a 100, de 101 a 200 e aquelas que administram mais de 201 condomínios.
Todas são administradoras de condomínios, mas o modelo operacional entre elas é bastante diferente.
Nas administradoras maiores, existe um fluxo gigantesco de movimentação financeira. Estamos falando de milhões de reais que passam mensalmente por processos de aprovação, programação e envio de pagamentos aos bancos.
Isso exige controles estruturados, processos bem definidos e sistemas capazes de lidar com grandes volumes de informação.
Já nas administradoras menores, muitas vezes a proposta é justamente oferecer um atendimento mais próximo e humanizado.
Porém, em muitos casos, isso também significa ausência de processos estruturados. Não é raro que pagamentos sejam realizados de forma manual, com profissionais acessando diretamente a conta corrente do condomínio e realizando os lançamentos individualmente.
Esse modelo funcionou por muito tempo, mas começa a encontrar limites à medida que a gestão condominial se torna mais complexa.
A administradora do futuro começa a operar de uma forma diferente. Em vez de processos manuais, cada vez mais vemos sistemas integrados por meio de APIs bancárias.
Isso significa que o ERP da administradora passa a se comunicar diretamente com as instituições financeiras. Pagamentos são programados dentro do sistema de gestão e enviados aos bancos de forma automatizada, com validações, registros e rastreabilidade muito mais claros. Essa integração traz ganhos importantes para todos os envolvidos.
Reduz o risco de erros operacionais, aumenta a segurança das transações e cria um nível muito maior de transparência para o condomínio.
A tecnologia passa a permitir que síndicos, conselhos e moradores acompanhem a gestão financeira com muito mais clareza.
Outro avanço que começa a ganhar espaço é o uso de estruturas mais organizadas de controle financeiro. Em vez de apenas registrar pagamentos, a gestão passa a trabalhar com planejamento e estruturação de despesas.
Já começamos a ver administradoras operando com centros de custo, previsões orçamentárias mais detalhadas e acompanhamento mais técnico dos recursos aprovados em assembleia
Isso permite entender, por exemplo, quanto do orçamento deve ser empenhado em cada área do condomínio e como esses recursos estão sendo utilizados ao longo do tempo. O resultado é uma gestão mais previsível e mais transparente.
Outro ponto que já começa a aparecer no mercado é o uso de inteligência artificial em tarefas operacionais. Um exemplo claro é a geração automática de atas de assembleia.
A tecnologia já consegue estruturar o documento com base na gravação da reunião ou nas anotações realizadas durante o encontro. O papel do humano deixa de ser o de redator e passa a ser o de validador, garantindo que o conteúdo esteja correto e em conformidade com o que foi deliberado.
Esse tipo de ferramenta não substitui o profissional. Pelo contrário, libera tempo para que ele se concentre em atividades mais estratégicas da gestão.
Outro movimento que deve se intensificar nos próximos anos é a especialização das administradoras.
Durante muito tempo, muitas empresas tentaram administrar condomínios de todos os perfis ao mesmo tempo: pequenos, grandes, residenciais, comerciais, clubes, loteamentos e empreendimentos de alto padrão.
Mas a conta nem sempre fecha.
É comum encontrarmos condomínios com taxas administrativas muito baixas que demandam um volume enorme de atendimento e suporte. Em muitos casos, esses condomínios acabam gerando mais demanda operacional do que empreendimentos com taxas mais altas e estruturas de gestão mais organizadas.
Por isso, cada vez mais administradoras começam a definir nichos de atuação. Algumas focam em condomínios de alto padrão, outras em condomínios-clube, outras em carteiras menores com atendimento mais personalizado.
A especialização tende a melhorar a qualidade da gestão e tornar o modelo de negócio mais sustentável.
Dentro desse cenário de transformação, existe um ponto que continua sendo fundamental: o papel do síndico.
Seja ele profissional ou morador, uma gestão condominial saudável depende de síndicos atuantes, que compreendam a complexidade do condomínio e trabalhem em parceria com a administradora.
Gestão condominial não é uma atividade solitária. É um trabalho de equipe.
Quando síndico, administradora e conselho atuam de forma alinhada, o resultado tende a ser muito mais positivo para o condomínio como um todo.
A administradora do futuro não é apenas uma ideia. Ela já começa a se desenhar no presente. Mais tecnologia, mais transparência, mais organização de processos e maior especialização de mercado.
Talvez nem todas as administradoras caminhem exatamente na mesma velocidade. Mas o movimento é claro: o mercado condominial está evoluindo.
E, conforme essa evolução acontece, também muda a forma como enxergamos a gestão que acontece por trás dos boletos.
(*) Fabrício Souza é Head de Expansão da Winker desde 2019, liderando o crescimento da empresa nas administradoras de condomínios e consolidando sua presença como a segunda maior plataforma de tecnologia do setor no Brasil. Com atuação direta no campo, já visitou 396 administradoras, construindo uma visão estratégica e prática do mercado. Também é criador do podcast “Por Trás dos Boletos”, conectando e dando voz aos principais nomes do segmento.