11/09/26 01:17 - Atualizado há 3 dias
Quando instalamos uma cerca perimetral para proteger um condomínio contra invasões, normalmente pensamos apenas na segurança patrimonial. Queremos impedir a entrada de pessoas mal-intencionadas, preservar a privacidade dos moradores e proteger o patrimônio comum.
Mas, às vezes, esquecemos que existem invasões que precisam ser permitidas.
São as invasões bem-vindas.
Refiro-me aos animais silvestres que habitam as áreas verdes vizinhas aos nossos condomínios e que, simplesmente, não reconhecem os limites que nós, seres humanos, desenhamos em mapas, escrituras e muros. Para eles, existe apenas o caminho até uma árvore frutífera, uma fonte de água ou um abrigo.
Esse é um dos grandes desafios do mundo moderno: encontrar um equilíbrio entre a vida organizada das cidades e a preservação da natureza.
Ao longo das últimas décadas, a praticidade exigida pelos centros urbanos acabou nos afastando de uma convivência harmoniosa com o meio ambiente. Planejamos cidades para carros, edifícios e infraestrutura, mas nem sempre para a circulação do vento, da água ou da fauna.
Em São Paulo, por exemplo, bairros planejados pela antiga Companhia City traziam uma visão urbanística admirável. As escrituras limitavam a altura dos muros para permitir que os ventos vindos do Planalto atravessassem livremente os bairros, contribuindo para um microclima mais agradável.
Infelizmente, muito desse planejamento foi sendo perdido. A impermeabilização crescente do solo, a redução das áreas verdes e o adensamento urbano contribuíram para as ilhas de calor, alterações no regime de chuvas e um ambiente cada vez menos equilibrado.
Também restringimos a vida dos animais silvestres às poucas áreas verdes que ainda resistem nas cidades.
Saruês, micos, porcos-espinhos, aves e tantas outras espécies continuam vivendo próximos de nós. Eles não compreendem onde termina uma reserva ambiental e começa um condomínio. Apenas seguem seus instintos em busca de alimento e abrigo.
É nesse momento que encontram barreiras projetadas exclusivamente para impedir qualquer passagem.
Concertinas, redes laminadas e cercas elétricas, embora eficientes sob a ótica da segurança patrimonial, podem causar ferimentos graves e até a morte desses animais.
Além do sofrimento causado, há um aspecto jurídico que não pode ser ignorado: a fauna silvestre é protegida por lei, e causar sua morte ou ferimento pode gerar responsabilizações.
Mas será que proteger o condomínio e proteger a natureza são objetivos incompatíveis?
Felizmente, não. A tecnologia evoluiu muito nos últimos anos.
Hoje existem sistemas de proteção perimetral inteligentes que não dependem de elementos cortantes ou eletrificados. Cabos sensores, sistemas sísmicos e tecnologias de detecção geram alarmes quando há uma tentativa de transposição da cerca.
Esses alarmes podem acionar câmeras e softwares de análise de imagens capazes de identificar se o movimento foi provocado por uma pessoa tentando invadir o condomínio ou apenas por um grupo de pequenos micos atravessando seu caminho.
A segurança permanece eficiente, mas deixa de representar uma ameaça constante para a fauna.
Alguns poderiam sugerir a construção de passagens específicas para os animais, como as passarelas utilizadas sobre rodovias para evitar atropelamentos.
No ambiente dos condomínios, porém, essa solução nem sempre é viável. Os animais não necessariamente utilizarão uma passagem determinada e, além disso, uma abertura permanente pode criar vulnerabilidades para invasões humanas.
Por isso, a resposta talvez não esteja em criar um único ponto de passagem, mas em substituir barreiras agressivas por sistemas inteligentes, capazes de distinguir riscos reais da circulação natural da fauna.
Estamos vivendo um momento em que cresce a preocupação com sustentabilidade, biodiversidade e qualidade de vida. Plantar árvores, preservar áreas verdes e recuperar jardins são atitudes importantes. Mas elas precisam ser acompanhadas de uma reflexão igualmente importante: como nossas estruturas de segurança impactam os seres vivos que dividem esse espaço conosco?
Fica aqui um convite aos síndicos, administradores e projetistas.
Ao planejar a proteção perimetral de um condomínio localizado ao lado de parques, reservas ou áreas arborizadas, avalie se realmente é necessário utilizar soluções que possam causar sofrimento aos animais silvestres. Muitas vezes, existem alternativas tecnológicas que oferecem o mesmo nível de proteção patrimonial com muito mais inteligência e respeito à vida.
Segurança e preservação ambiental não são conceitos opostos. Quando bem planejadas, caminham lado a lado.
Porque proteger um condomínio também significa compreender que fazemos parte de um ecossistema maior. E quanto mais aprendermos a conviver com a natureza, maiores serão as chances de preservarmos aquilo que torna nossas cidades verdadeiramente habitáveis.
(*) Lígia Ramos é Arquiteta Urbanista e Bióloga, síndica profissional da D’Accord há 20 anos, em São Paulo. Cuida de aspectos práticos do condomínio, como áreas verdes, gestão de pessoas, planejamento e comunicação.