Amanda Accioli

Quando renunciar ao cargo de síndico é um ato de coragem

Trabalho do síndico profissional depende de confiança. Clima de vigilância excessiva e acusações implícitas do conselho são "red flags" indicativas de que é hora de renunciar em prol da própria saúde mental.

Por Amanda Accioli

16/04/26 04:36 - Atualizado há 8 h


Renunciar ao meu primeiro condomínio como síndica profissional, após apenas quatro meses de gestão, foi uma das experiências mais marcantes e dolorosas da minha trajetória. Eu vinha atuando há anos como advogada consultiva condominial, habituada a lidar com conflitos, assembleias tensas e conselhos exigentes. Achava que já tinha visto de tudo. Mas a realidade de assumir a linha de frente da gestão, com a responsabilidade total de conduzir uma comunidade inteira, revelou nuances emocionais e humanas que nem o mais complexo processo jurídico poderia antecipar.

Entrei naquele condomínio com entusiasmo, com projetos estruturados, metas de curto e médio prazo e o desejo genuíno de melhorar a vida dos moradores. E, de fato, em poucos meses os resultados apareciam: organização dos processos internos, revisão e renegociação de contratos, respostas rápidas aos chamados, transparência nos relatórios financeiros e uma comunicação clara, que vinha sendo elogiada pelo próprio conselho.

Cada reunião com eles começava com palavras de reconhecimento, admiração e até surpresa por, em tão pouco tempo, tantos ajustes terem sido implementados de forma eficiente. Porém, nos bastidores, a sensação era completamente oposta. A cada dia, eu convivia com olhares atravessados, insinuações veladas e desconfianças injustificadas sobre minha idoneidade.

A comunicação que vinha do conselho era dupla: elogiavam meu trabalho, mas ao mesmo tempo alimentavam — por comentários indiretos e conversas distorcidas — um clima de vigilância excessiva, como se a qualquer momento eu fosse cometer algum deslize.

Eu precisava justificar cada decisão, cada orçamento, cada e mail, como se meu histórico profissional e a transparência que eu sempre entreguei nada significassem.

Começaram a questionar trocas de fornecedores que haviam sido solicitadas pelo próprio conselho, desconfiando do que chamavam de “agilidade demais”, como se eficiência fosse algo suspeito. E o mais doloroso era perceber que nenhuma acusação era explícita, tudo sempre embrulhado em frases como “não é nada pessoal”, “é só controle”, “entenda que precisamos conferir”, enquanto ao mesmo tempo enviavam mensagens elogiando minha dedicação e minha postura impecável.

Com o tempo, a forma como eu era tratada passou a ultrapassar o limite do profissional. Interrupções ríspidas em reuniões, tentativas de me ensinar procedimentos que eu já dominava há anos, dúvidas lançadas na frente de funcionários para me constranger, pedidos de relatórios duplicados com a justificativa de que precisavam “ter certeza de que as coisas estavam corretas”. Era como se eu tivesse que provar diariamente que era honesta, competente e capaz, mesmo diante de resultados claros.

Conselho tóxico e a dor do desrespeito

Percebi que aquele ambiente não era apenas desconfiado — era tóxico. A confiança, que deveria ser a base de qualquer relação entre síndico e conselho, simplesmente não existia. E trabalhar sob esse clima tem consequências: noites sem dormir, ansiedade antes de atender telefonemas, receio de abrir o e-mail, desgaste emocional que vai corroendo o entusiasmo e apagando o brilho da profissão. 

A gota d’água veio durante uma reunião, após mais um elogio seguido de uma crítica infundada. Insinuaram que eu estava “detalhando demais os relatórios financeiros”, como se a transparência absoluta fosse um problema. Ali entendi que não se tratava do meu trabalho — tratava-se da incapacidade daquele conselho de lidar com uma gestão profissional, organizada e feminina.

Eu era elogiada pelo que entregava, mas era tratada como se estivesse sempre prestes a falhar. Nenhum profissional merece trabalhar em um ambiente em que a sua palavra, seu conhecimento e sua ética são colocados em dúvida diariamente, mesmo sem motivo algum. 

Renunciar foi um ato de respeito por mim mesma. Comuniquei minha decisão de forma clara, profissional e serena. Expliquei que, apesar dos resultados positivos, o ambiente não permitia uma gestão saudável e que, para proteger minha saúde emocional e minha integridade profissional, eu deixaria o cargo.

Não houve escândalo, nem rupturas dramáticas; houve apenas um silêncio desconfortável do outro lado, como se nunca imaginassem que a pessoa tão elogiada e ao mesmo tempo tão pressionada pudesse simplesmente escolher não aceitar mais aquele tratamento.

Essa foi a maior lição que tirei: nenhum síndico, por mais capacitado que seja, consegue trabalhar quando a confiança não existe. Não há projeto, planilha ou relatório que sobreviva à falta de respeito. 

Como evitar a renúncia do síndico profissional

Como dica de gestão para outros profissionais, eu diria que antes mesmo de aceitar um condomínio é fundamental avaliar não só as estruturas físicas, financeiras e contratuais, mas principalmente o perfil humano do conselho. Entender a cultura daquele grupo, observar como falam com o antigo síndico, como tratam funcionários, como se comunicam entre si. Síndico não é apenas gestor; é mediador de relações humanas, e se essas relações estiverem adoecidas desde a origem, o trabalho não flui.

Outra dica valiosa é estabelecer limites claros desde o início. Transparência não é sinônimo de submissão. Relatórios não podem virar instrumentos de humilhação. Comunicação precisa ser firme, profissional e respeitosa dos dois lados. E, acima de tudo, saiba a hora de partir.

Renunciar não é fracasso; é maturidade. É reconhecer que sua energia, seu tempo e sua experiência merecem ser investidos em ambientes que respeitem seu valor. 

Sair daquele condomínio não foi uma derrota — foi o início da minha maturidade como síndica profissional. E, anos  depois, percebo que aquela renúncia me tornou mais forte,  mais atenta, mais estratégica e muito mais cuidadosa na  forma de escolher onde e com quem trabalhar. Porque  síndico nenhum deve aceitar menos do que respeito.

(*) Amanda Accioli é Síndica Profissional e Advogada Condominialista, Diretora Nacional da Sindicatura da ANACON (Associação Nacional da Advocacia Condominial), Membro da Comissão Especial de Direito Condominial da OAB/SP, Síndica associada à AABIC e ao Secovi-SP. Palestrante e articulista. Instagram: @acciolicondominial | e-mail: amandaaccioli.adv@gmail.com