André Junqueira

O Cinema no Condomínio: O Que os Filmes Ensinam aos Síndicos

Aproveitando o clima do Oscar, colunistas selecionaram 28 filmes e séries de todos os gêneros que retratam disputas de poder, barulho e regras com reflexões práticas para síndicos e moradores

Por André Junqueira

20/03/26 01:44 - Atualizado há 1 dia


(*) Por Karine Prisco e André Luiz Junqueira

Ser síndico vai muito além de administrar boletos, contratos e assembleias. É lidar diariamente com conflitos dignos de novela, comédias involuntárias, pequenos suspenses e, em alguns dias mais intensos, verdadeiros filmes de terror.

O cinema sempre soube retratar com precisão as relações humanas em espaços compartilhados. Conflitos de vizinhança, disputas de poder, regras levadas ao extremo, falhas estruturais, barulho e invasões de privacidade são temas recorrentes nas telas — e assustadoramente familiares para quem vive a rotina condominial.

Este artigo propõe uma sessão pipoca comentada: uma leitura leve, irônica e reflexiva de 28 filmes e séries que acabam ensinando mais sobre convivência em condomínio do que muitos manuais técnicos.

Nem todos são filmes de condomínios, mas tratam de aspectos que facilmente se notam na vida condominial. Boa leitura e divirta-se!

1BR: O Apartamento (2019)

Sinopse

Um condomínio aparentemente perfeito exige obediência total a regras assustadoras, situação vivida por Sarah (Nicole Brydon Bloom), uma jovem que se muda para o edifício buscando recomeçar sua vida e passa a conviver com os misteriosos moradores liderados por Jerry (Taylor Nichols).

Lição aprendida

Regimento interno é necessário para organizar a convivência, mas quando regras deixam de proteger a coletividade e passam a exigir obediência absoluta, o condomínio pode se transformar em um ambiente de forte pressão social.

O filme mostra como relações de vizinhança aparentemente amistosas podem esconder manipulação, influência psicológica e controle coletivo. Em ambientes fechados como condomínios — onde todos se observam, comentam e influenciam uns aos outros — comportamentos e ideias podem se espalhar rapidamente.

No fim das contas, o filme deixa uma reflexão curiosa sobre a vida em condomínio: às vezes o maior problema do prédio não é o barulho, o elevador quebrado ou a infiltração.

Apartamento 7A (2024) e o Bebê de Rosemery (1968 e 2014)

Apartamento 7A (2024)

O Bebê de Rosemary (1968)

O Bebê de Rosemary (2014) (minissérie)

*Válido para os três:

Sinopse

Os filmes Apartamento 7A (2024) e O Bebê de Rosemary (1968 e 2014) giram em torno do misterioso edifício Bramford, um prédio luxuoso em Nova York que esconde segredos perturbadores por trás de sua aparência sofisticada.

Em Apartamento 7A, acompanhamos Terry Gionoffrio, uma jovem que se muda para o prédio em busca de novas oportunidades, mas acaba envolvida com vizinhos aparentemente gentis que escondem intenções sombrias.

Já em O Bebê de Rosemary, a história segue Rosemary Woodhouse, uma mulher que, após se mudar para o mesmo edifício com o marido, passa a desconfiar que os moradores ao redor — especialmente o casal Minnie e Roman Castevet — fazem parte de um culto sinistro interessado em seu bebê.

Entre manipulações psicológicas, relações de vizinhança suspeitas e acontecimentos cada vez mais inquietantes, os filmes revelam como um condomínio elegante pode esconder uma rede de conspirações e segredos macabros, transformando a convivência entre vizinhos em um verdadeiro pesadelo.

Lição aprendida

O polêmico cineasta Roman Polanski, na década de 60 e 70, fez alguns filmes que ficaram conhecidos como “a trilogia do apartamento”. Um deles é O bebê de Rosemary, que foi um grande sucesso no cinema, gerou remakes e, inclusive, a recente prequela Apartamento 7A.

Se notarem, todo o problema se passa em um condomínio. Pessoas que se matam no condomínio, casal de idosos aparentemente inofensivos e muito interessados na sua vida e seitas demoníacas sendo realizados em apartamentos com interesses obscuros. Mais um exemplo de que viver em condomínio é um ato de coragem.

Aquarius (2016)

Sinopse

Clara (Sonia Braga), uma jornalista aposentada e crítica musical, é a última moradora do edifício Aquarius, um prédio antigo à beira-mar em Recife - Pernambuco.

Enquanto uma construtora compra todos os outros apartamentos para demolir o edifício e construir um empreendimento de luxo, Clara se recusa a vender sua unidade e enfrenta pressões cada vez mais agressivas da empresa representada por Diego (Humberto Carrão).

A disputa entre memória, identidade e especulação imobiliária transforma o prédio em palco de resistência e conflito.

Lição aprendida

O concreto pode ser demolido, mas a memória afetiva de um morador é um elemento estrutural difícil de remover.

Aquarius mostra que edifícios não são apenas patrimônio físico: são espaços de história, identidade e pertencimento. Para o síndico e para a gestão imobiliária, entender esse vínculo emocional é tão importante quanto lidar com números, obras e contratos.

Arraste-me para o Inferno (2009)

Sinopse

Uma funcionária nega um pedido e recebe uma maldição eterna, situação vivida por Christine Brown (Alison Lohman), funcionária de um banco que se recusa a conceder uma extensão de prazo a uma cliente idosa, Sylvia Ganush (Lorna Raver), desencadeando uma série de acontecimentos sobrenaturais que passam a atormentá-la, enquanto seu namorado Clay Dalton (Justin Long) tenta ajudá-la.

Lição aprendida

O filme não se passa em um condomínio, mas a protagonista faz algo que síndicos devem fazer com certa frequência: cobrar devedores. A forma de se cobrar é crítica, não só pela eficiência da recuperação do crédito em si, mas também para que você não seja alvo de represálias das pessoas que você cobra.

O ideal, além de tratar as pessoas com respeito, imparcialidade, empatia sem exagero, é delegar essa função a outras pessoas, como advogados, para evitar que o síndico seja amaldiçoado pelo demônio.

Água Negra (2005)

Sinopse

Dahlia Williams (Jennifer Connelly) se muda com a filha pequena, Ceci (Ariel Gade), para um antigo prédio residencial enquanto enfrenta uma difícil disputa judicial pela guarda da criança.

No novo apartamento, uma infiltração persistente no teto começa a surgir e se transforma em algo cada vez mais perturbador.

À medida que o problema se agrava e é ignorado pelo síndico e pela administração do edifício, Dahlia passa a perceber que a mancha escura e a água que escorre escondem um mistério muito mais profundo do que um simples defeito estrutural.

Lição aprendida

Em Água Negra, a infiltração não é apenas um defeito estrutural — ela ganha corpo, presença e ameaça silenciosa. Começa com uma mancha discreta, evolui para um gotejamento insistente e, quando ignorada, transforma-se em algo que parece impossível de controlar.

Em condomínio, infiltração ignorada vira entidade própria: primeiro é só uma marca no teto, depois um vazamento constante e, quando ninguém toma providência, o “demônio” já tomou conta da laje.

Divertida Mente (2015)

Sinopse

Emoções disputam o controle do cérebro, como Alegria (Amy Poehler), Tristeza (Phyllis Smith), Raiva (Lewis Black), Medo (Bill Hader) e Nojinho (Mindy Kaling), que vivem dentro da mente da jovem Riley (Kaitlyn Dias) e influenciam suas decisões e reações no dia a dia.

Lição aprendida

Ser síndico é, na prática, lidar diariamente com um verdadeiro turbilhão de emoções — tanto as próprias, quanto as dos moradores. Reclamações, conflitos, expectativas, frustrações e pequenas vitórias fazem parte da rotina condominial.

Assim como em Divertida Mente, diferentes emoções disputam espaço em cada situação.

O síndico que consegue entender o sentimento por trás de uma reclamação — seja raiva, medo, frustração ou insegurança — tem muito mais chances de mediar conflitos com equilíbrio e encontrar soluções que realmente funcionem para o condomínio.

Duplex (2003)

Sinopse

Alex Rose (Ben Stiller) e Nancy Kendricks (Drew Barrymore) formam um jovem casal que compram o que acreditam ser o imóvel ideal, atraídos por um excelente negócio e pela promessa de tranquilidade.

O problema surge quando descobrem que a antiga moradora do andar superior continua legalmente no imóvel, transformando a convivência em uma disputa silenciosa, desgastante e profundamente psicológica. Pequenas provocações cotidianas evoluem para um conflito de resistência, no qual ninguém está disposto a ceder.

Lição aprendida

Antes de comprar um imóvel, pesquise como é o prédio como um todo. Duplex prova que o "imóvel ideal" e a "promessa de tranquilidade" afundam rapidinho quando o fator humano entra na equação. Assista para entender o que é um morador amparado pela lei e munido de tempo livre para transformar a convivência em um verdadeiro inferno.

Edifício Master (2002)

Sinopse

Documentário que escancara a vida real dentro de um prédio em Copacabana, revelando solidão, histórias invisíveis e a humanidade crua dos moradores de um edifício de classe média.

A câmera entra nos apartamentos e mostra como, por trás de portas aparentemente iguais, existem vidas completamente diferentes, marcadas por sonhos, frustrações, memórias e silêncios.

Lição aprendida

O verdadeiro orçamento de um prédio não é medido apenas em reais ou na planilha de despesas, mas também nos dramas humanos que nenhuma ata de assembleia consegue registrar.

Atrás de cada porta existe uma história diferente: pessoas solitárias, famílias em conflito, sonhos, frustrações e memórias acumuladas ao longo do tempo.

O síndico administra muito mais do que contas, contratos e manutenção predial — administra convivências, expectativas e sensibilidades humanas. Entender essa dimensão invisível da vida em condomínio muitas vezes é tão importante quanto equilibrar o caixa do prédio.

Enquanto Você Dorme (Mientras Duermes, 2011)

Sinopse

César (Luis Tosar) é funcionário de um prédio residencial que usa chaves mestras para invadir apartamentos à noite. Ele observa obsessivamente a vida dos moradores, especialmente Clara (Marta Etura), aproveitando sua posição e acesso privilegiado para entrar nas unidades sem ser percebido.

Lição aprendida

Um porteiro ou um zelador de um condomínio, quando trabalham bem, podem literalmente salvar vidas em um condomínio. E o que acontece quando eles não trabalham bem?

A resposta está no filme, pois as maiores atrocidades que um funcionário pode fazer em um condomínio, esse filme exemplifica. A lição é: sempre trate todos bem e esteja sempre vigilante.

Homem-Aranha (Saga do Personagem)

Sinopse

Peter Parker é um estudante comum que ganha habilidades extraordinárias após ser picado por uma aranha geneticamente modificada. Ao assumir a identidade do Homem-Aranha, ele passa a proteger Nova York enquanto tenta equilibrar sua vida de herói com seus estudos, amizades e relacionamentos.

Em diferentes versões do personagem no cinema, Peter enfrenta vilões poderosos, perdas pessoais e dilemas morais que reforçam a principal lição de sua jornada: com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades.

Lição aprendida

Se o síndico fosse um super-herói, ele seria, sem dúvida, o Homem-Aranha: o eterno "amigo da vizinhança" que trabalha incansavelmente pelo bem comum, muitas vezes sem reconhecimento.

Assim como o herói, o gestor está sempre "apanhando" das circunstâncias, é frequentemente mal interpretado pelo público que protege e, ironicamente, o homem-aranha é o herói que coleciona a maior lista de inimigos, mesmo tendo as melhores intenções.

A grande lição é a resiliência: apesar da ingratidão e das batalhas diárias, ele continua voltando para defender o bem comum porque sabe que, com grandes poderes (ou votos), vêm grandes responsabilidades.

Janela Indiscreta (1954)

Sinopse

Um fotógrafo confinado observa a vida dos vizinhos e presencia um possível crime. L. B. “Jeff” Jefferies (James Stewart) acompanhar a rotina dos moradores do prédio ao lado com a ajuda de sua namorada Lisa Fremont (Grace Kelly) e da enfermeira Stella (Thelma Ritter).

Lição aprendida

Nunca se sabe exatamente quem são seus vizinhos e o que eles fazem dentro de quatro paredes. Se pararmos para observar, pode ser prejudicial à nossa própria saúde.

No contexto de um suspense, esse clássico do cinema trabalha bem o fascínio de acompanhar a vida alheia desafiando o conceito de privacidade, mas também expõe que, sem vigilância crimes, podem passar despercebidos.

Maré Alta (King Tide, 2023)

Sinopse

Em uma pequena comunidade isolada, Bobby (Clayne Crawford) e Grace (Lara Jean Chorostecki) criam Isla (Alix West Lefler), uma criança misteriosa encontrada após um naufrágio e que parece possuir habilidades inexplicáveis.

Com o tempo, os moradores da ilha começam a acreditar que a menina pode ser responsável por acontecimentos extraordinários, desencadeando tensões entre vizinhos e revelando como o medo e a fé podem transformar uma comunidade aparentemente tranquila.

Lição aprendida

O síndico é como um prefeito retratado no filme. Quando uma comunidade pequena começa a lidar com medo coletivo, crenças pessoais e interesses divergentes, o equilíbrio social pode se romper rapidamente. 

Em ambientes fechados — como ilhas, vilarejos ou condomínios — decisões individuais se tornam rapidamente problemas coletivos.

O filme também traz uma reflexão importante sobre liderança: em determinado momento, o responsável pela ordem da comunidade proíbe os moradores de deixarem a ilha, mas quando a situação o afeta diretamente, ele próprio ignora a regra.

Para um síndico, a lição é clara: gestão exige imparcialidade. Regras que valem para os outros precisam valer também para quem administra. Quando a liderança aplica normas de forma seletiva, a confiança coletiva se rompe e o conflito se instala.

Meus 84 m² (Wall to Wall, 2025)

Sinopse

O sonho da casa própria vira pesadelo por ruídos de impacto inexplicáveis vividos por Woo-seong (Kang Ha-neul), morador do apartamento recém-adquirido, enquanto o síndico ou administrador do edifício, Eun-hwa (Yeom Hye-ran), e outros moradores do prédio passam a fazer parte do conflito crescente dentro do condomínio.

Lição aprendida

O filme demonstra a dificuldade que é adquirir um imóvel - realidade de muitos condôminos que ficam presos a financiamentos que comprometem bastante sua renda - e como um condomínio pode se assemelhar a um barril de pólvora quando combinados à uma gestão corrupta ou ineficiente que não lida adequadamente com perturbações ao sossego.

Melhor é impossível (1997)

Sinopse

Melvin Udall (Jack Nicholson) é um escritor com Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) que vive isolado em suas manias, atormentando a vida de seu vizinho, o artista Simon Bishop (Greg Kinnear), e da garçonete Carol Connelly (Helen Hunt).

Quando uma série de infortúnios obriga esses mundos a colidirem, a convivência forçada revela que, por trás da grosseria e das regras rígidas de Melvin, existe uma necessidade humana de conexão que desafia os preconceitos de todos.

Lição aprendida

Nem todo morador difícil é, necessariamente, um morador de má-fé. Muitas vezes, comportamentos ríspidos, inflexíveis ou socialmente inadequados escondem fragilidades emocionais e dificuldades de interação.

O filme mostra que rotular rapidamente alguém como “problemático” pode agravar o conflito em vez de resolvê-lo.

Na gestão condominial, firmeza na aplicação das regras é indispensável, mas empatia estratégica e leitura do contexto são ferramentas igualmente essenciais.

O síndico eficaz equilibra autoridade e humanidade, evitando que conflitos interpessoais se transformem em disputas permanentes dentro do edifício.

As cenas que mais se relacionam com condomínios são as interações no prédio entre o personagem interpretado por Jack Nicholson, que é o morador “problemático”, e o outro personagem, interpretado por Greg Kinnear, exemplificando conflitos que ocorrem entre vizinhos por questões de orientação sexual e animais em condomínios, que incomodam muito o protagonista.

Minha Mãe é uma Peça (2013)

Sinopse

Dona Hermínia (Paulo Gustavo) é uma mulher de meia-idade divorciada e superprotetora que, ao se sentir desvalorizada pelos filhos Marcelina (Mariana Xavier) e Juliano (Rodrigo Pandolfo), decide se afastar de casa, mas jamais abandona seu posto de fiscal geral da vida alheia, controlando a vida da sua família e dos seus vizinhos.

Lição aprendida

Todo prédio tem uma Dona Hermínia: aquela "fiscal-geral" que não tem papas na língua e domina os corredores como se fossem a extensão da própria sala de estar.

O segredo do síndico de sucesso não é confrontar, mas recrutá-la. Quem precisa de um circuito de câmeras caríssimo quando se tem uma moradora que defende o patrimônio coletivo com excesso de zelo e um volume de voz um pouco acima do normal?

Embora o foco do filme não seja a relação condominial, as cenas da dona Hermínia no condomínio, além de inesquecíveis, são facilmente experimentadas na vida real.

Náufrago (2000)

Sinopse

Chuck Noland (Tom Hanks), executivo de uma empresa de entregas, sobrevive a um acidente aéreo e fica completamente isolado em uma ilha deserta, tendo apenas um objeto inusitado como companhia: a bola Wilson, que ele transforma em seu único interlocutor enquanto tenta sobreviver e manter sua sanidade.

Lição aprendida

O filme funciona como a antítese perfeita de um condomínio. Em vez de excesso de vizinhos, regras, barulhos e conflitos, existe apenas silêncio absoluto e solidão.

Se em condomínios o desafio é conviver com muitas pessoas diferentes em um mesmo espaço, em Náufrago o desafio é justamente o oposto: sobreviver sem ninguém por perto.

A obra lembra que, apesar de todos os conflitos da vida coletiva, viver em comunidade ainda é uma das maiores necessidades humanas. Vivemos em condomínios em busca de segurança, sossego e saúde. Vivemos em sociedade para se ter acesso facilitado a recursos, alimento, água etc.

A vida quando se está sozinho é muito difícil. Assistir ao filme contribui com a perspectiva de que a vida condominial é desafiadora, mas viver sozinho é muito mais.

O Enigma de Outro Mundo (1982)

Sinopse

Um grupo isolado onde ninguém sabe quem é o impostor, como acontece com R. J. MacReady (Kurt Russell), que convive com outros integrantes da estação científica na Antártida como Dr. Blair (Wilford Brimley), Childs (Keith David) e Garry (Donald Moffat), enquanto a desconfiança cresce entre todos.

Lição aprendida

Por si só, a fórmula para o desastre pode ser colocar várias pessoas de idades diferentes, profissões diferentes, classes sociais diferentes e interesses distintos em um ambiente fechado e isolado.

Se a essa situação se adicionar a desconfiança dentro do grupo, vocês já podem imaginar o caos.

Em um comparativo bem generoso, o que se desenrola no filme é o que acontece com certa frequência em condomínios, que simplesmente implodem.

O personagem interpretado por Kurt Russel é o que chamamos de síndico, um líder improvável, mas que assume as rédeas da situação para tentar evitar o apocalipse.

O Pior Vizinho do Mundo (2022)

Sinopse

Otto Anderson (Tom Hanks) é um morador ranzinza que fiscaliza rigorosamente as vagas de estacionamento, a separação do lixo e cada regra da vizinhança.

Após a morte da esposa, ele vive preso à rotina e ao apego às normas do lugar onde mora.

Sua vida começa a mudar quando a nova vizinha Marisol (Mariana Treviño) e sua família chegam ao bairro e insistem em criar vínculos com ele, revelando que, por trás da rigidez, existe uma profunda solidão.

Lição aprendida

Muitas vezes, a fiscalização constante de regras, vagas e pequenos detalhes é um reflexo de solidão, perda ou necessidade de pertencimento.

O filme lembra que o regulamento não deve ser usado como instrumento de ataque, mas como ferramenta de organização coletiva.

Para o síndico, o desafio está em aplicar as normas com equilíbrio, sem ignorar que, por trás da postura inflexível, pode existir alguém pedindo — ainda que de forma inadequada — por conexão e reconhecimento.

A história se passa em um bairro organizado como um condomínio de casas, algo que no Brasil poderia se assemelhar a um loteamento ou associação de moradores, e destaca como o zelo excessivo do protagonista pelas regras pode tanto gerar conflitos quanto revelar fragilidades humanas escondidas.

Os Outros (Globoplay)

Sinopse

Um retrato preciso da intolerância entre vizinhos em um condomínio-clube, acompanhando moradores como Cibele (Adriana Esteves) e Amâncio (Milhem Cortaz), além do casal Wando (Eduardo Sterblitch) e Mila (Maeve Jinkings), cujas relações começam a se deteriorar a partir de conflitos aparentemente pequenos entre seus filhos e que acabam escalando para situações cada vez mais graves dentro do condomínio.

Lição aprendida

Essa recente série de produção brasileira consegue incluir em um mesmo condomínio muitos dos problemas que se enfrentam hoje. Crianças / adolescentes fazendo algazarra em áreas comuns, violência doméstica, pressão das milícias, corrupção da administração do condomínio e muitos outros.

Ser vizinho de alguém não te faz automaticamente presumir o que essa pessoa está passando e pequenos atritos podem gerar grandes brigas, inclusive com intervenção policial, judiciário etc., se não tomarmos cuidado. 

Parasita (2019)

Sinopse

Subsolos, vazamentos e desigualdade social conectam famílias de mundos opostos, como a família Kim — Ki-taek (Song Kang-ho), Chung-sook (Jang Hye-jin), Ki-woo (Choi Woo-shik) e Ki-jung (Park So-dam) — e a família Park — Dong-ik (Lee Sun-kyun) e Yeon-kyo (Cho Yeo-jeong).

Lição aprendida

Parasita mostra que desigualdades não desaparecem quando são escondidas — elas apenas mudam de nível, de andar ou de acesso.

No condomínio, diferenças econômicas, sociais e culturais convivem sob o mesmo teto, ainda que separadas por portas blindadas e elevadores privativos. Quando a gestão ignora essas tensões estruturais, o conflito encontra caminhos invisíveis para emergir — muitas vezes pelos mesmos dutos que conectam todos os apartamentos.

O desafio do síndico não é eliminar diferenças, mas administrar convivências desiguais com equilíbrio, transparência e regras claras para todos.

Por analogia o que se desenrola no filme é como um condomínio “forçado”, onde duas famílias que, praticamente, não tem nada em comum, convivem no mesmo espaço e, pior, se odeiam, invejam o outro e/ou se acham superiores.

Sétimo (2013)

Sinopse

Um pai aposta uma corrida com os filhos — eles descem pela escada, ele pelo elevador — e as crianças desaparecem, colocando Sebastián (Ricardo Darín) em uma busca desesperada pelo prédio enquanto tenta entender o que aconteceu com seus filhos Luca e Luna.

Lição aprendida

Pode parecer que o condomínio nada mais é do que a extensão da sua casa, mas coisas ruins podem acontecer na sua própria casa. Não se deixa criança desacompanhada em áreas comuns, não se deve brincar com elevadores ou escadas e o condomínio pode virar um verdadeiro labirinto.

Star Trek (2009)

Sinopse

A tripulação da nave USS Enterprise é formada por oficiais com personalidades e origens muito diferentes, como o capitão James T. Kirk (Chris Pine), o oficial científico Spock (Zachary Quinto), o médico Leonard “Bones” McCoy (Karl Urban), o engenheiro Montgomery Scott “Scotty” (Simon Pegg) e a oficial Uhura (Zoe Saldaña), que precisam aprender a trabalhar juntos enquanto enfrentam ameaças externas e conflitos internos durante missões no espaço.

Lição aprendida

Embora se passe em uma nave espacial, e não em um condomínio, Star Trek funciona como uma metáfora interessante de convivência coletiva.

Pessoas de origens, culturas, temperamentos e funções completamente diferentes precisam compartilhar o mesmo espaço e seguir regras para que a nave funcione. Assim como em um condomínio, a liderança precisa equilibrar disciplina, cooperação e respeito às diferenças para que o sistema não entre em colapso.

A franquia Star Trek merece um estudo dedicado, pois tanto no micro (que seria a nave) como no macro (que seria a Federação de Planetas) existem inúmeros pontos sobre a organização e convivência humana que são vivenciados no mundo condominial.

Toc Toc (2017)

Sinopse

Um grupo de pacientes com Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) aguarda a chegada de um médico cujo voo atrasou. Na sala de espera, convivem figuras distintas como Emilio (Paco León), um taxista com mania de acumulação e cálculos; Blanca (Alexandra Jiménez), que tem pavor de germes; Ana María (Rossy de Palma), obcecada por verificação; e Federico (Oscar Martínez), que sofre da Síndrome de Tourette.

A espera forçada obriga esses desconhecidos a lidarem com as manias uns dos outros, transformando o caos em uma inusitada terapia de grupo. 

Lição aprendida

Toda assembleia de condomínio é, no fundo, a sala de espera deste filme. A gestão exige mediar perfis que variam desde quem tem mania de acumulação até quem é obcecado por checagens e limpeza.

A verdadeira "terapia de grupo" do síndico é usar a inteligência emocional: entender os gatilhos é a única diferença entre aprovar a previsão orçamentária ou assistir a uma guerra civil por causa da cor do tapete do saguão.

Vigilância (The Rental, 2020)

Sinopse

Hóspedes descobrem câmeras escondidas em um imóvel alugado, situação vivida por Charlie (Dan Stevens), Mina (Sheila Vand), Josh (Jeremy Allen White) e Michelle (Alison Brie) durante uma viagem de fim de semana em uma casa aparentemente perfeita para locação.

Lição aprendida

A locação por diária pode virar esporte radical. Nem todo “Superhost” respeita regras e limites condominiais. Um dos destaques é a invasão de privacidade, que é sempre um temor do ocupante.

Vizinhos (2014)

Sinopse

Mac Radner (Seth Rogen) e sua esposa Kelly (Rose Byrne) tentam levar uma vida tranquila com sua filha recém-nascida, mas enfrentam o caos absoluto quando Teddy Sanders (Zac Efron) e sua fraternidade barulhenta se mudam para a casa ao lado, transformando a vizinhança em um campo de batalha.

Lição aprendida

O filme mostra o nível que o prejuízo ao sossego pode levar as pessoas a agressões mútuas e irracionais. Vizinhos prova que em guerra de barulho, não existem vencedores: apenas sobreviventes com olheiras profundas e um desejo incontrolável de desligar a energia geral no quadro de força.

Vizinhos (2023)

Sinopse

Produzida pela Cine Group, a série “Vizinhos” tem dez episódios, com 30 minutos de duração cada um e histórias totalmente independentes entre si, com começo, meio e fim.

Doze atores se revezam em diferentes papéis para que as tramas gerem identificação e promovam reflexões sobre o próprio comportamento em determinadas circunstâncias.

A dificuldade em lidar com as diferenças serve de mola propulsora para a narrativa de cada um dos episódios e descortina situações surpreendentes e, ao mesmo tempo, calcadas na realidade.

Viver em condomínio, algo tão comum no dia a dia das pessoas que moram nas grandes cidades, também é um celeiro de possibilidades para entreter o espectador.

Lição aprendida

A convivência entre vizinhos é uma das experiências sociais mais intensas da vida urbana. Pequenos incômodos — barulho, uso de áreas comuns, hábitos diferentes e expectativas conflitantes — podem rapidamente se transformar em disputas maiores.

A série mostra que o equilíbrio em ambientes coletivos depende de regras claras, mediação constante e, principalmente, disposição para dialogar antes que os conflitos saiam do controle.

O Síndico como Protagonista

No cinema e na vida real, o prédio é o cenário e os moradores são o elenco.

Condomínios concentram praticamente todos os elementos de um bom roteiro:

Nos filmes de terror, sempre existe aquele personagem que sobrevive ao caos e, no final, tenta colocar alguma ordem na casa. No mundo real, esse personagem costuma ser o síndico.

Mas é importante lembrar: dependendo do ponto de vista, o síndico também pode aparecer no roteiro como o antagonista (o vilão que aplica regras), como o investigador que tenta descobrir o que está acontecendo ou até como a vítima que sofre as consequências do conflito coletivo.

Todo prédio tem seus personagens marcantes, seus conflitos épicos e seus momentos dignos de trilha sonora dramática.

O síndico não é um herói invencível nem um vilão cruel. Na prática, é apenas a pessoa que tenta manter o condomínio funcionando, a convivência minimamente civilizada e a própria sanidade intacta.

Se depois de ler este artigo você se reconheceu em metade dessas histórias, há grandes chances de que esteja vivendo exatamente o que o cinema tenta retratar há décadas.

Parabéns: você realmente é síndico. 

(*) Karine Prisco é graduada em Administração de Empresas, certificada em gestão de negócios pela London School of Business (LSB) em Londres, Inglaterra, é formada pelo Secovi Rio em Administração de Condomínios. Possui mais de 10 anos de experiência na área condominial como Síndica Profissional no Rio de Janeiro. (*) André Luiz Junqueira é professor, advogado com 20 anos de experiência e autor do livro “Condomínios – Direitos & Deveres”; Sócio titular da Coelho, Junqueira & Roque Advogados, atuante em todo Brasil e que representa cerca de 10% dos condomínios do Rio de Janeiro; Pós-graduado em Direito Civil e Empresarial pela Universidade Veiga de Almeida. MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getulio Vargas; Certificado em Negotiation and Leadership pela Universidade de Harvard; Professor convidado do SECOVIRio, ABADI, Gábor, GP Academy URBX e da Escola Superior de Advocacia (ESA) da OAB/RJ; Consultor jurídico da ABADI; Membro das Comissões de Direito Urbanístico e Imobiliário, Condominial, de Sindicatura Profissional, de Gestão de Propriedades Urbanas e de Turismo da OAB/RJ; Membro e ex-diretor jurídico da ABAMI; Membro da Comissão de Condomínios do IBRADIM; Membro da Comissão de Direito Imobiliário do IAB.