Guia sobre Segurança

Segurança comunitária

Integração entre condomínios é fundamental

Por Mariana Ribeiro Desimone

terça-feira, 15 de maio de 2018


A segurança é um dos maiores interesses para quem mora em condomínio.

Entretanto, treinar os funcionários, contar com procedimentos de segurança e investir em tecnologia são tidos como “feijão com arroz” atualmente. Afinal, todos sabemos que, infelizmente, apenas isso não é mais suficiente para enfrentar a violência nos dias de hoje.

Diante desse cenário, uma forma de ir além - e que vem ganhando força nos condomínios - , é investir na segurança comunitária.

O conceito é algo que deveria interessar a todos porque, se cada um fizer um pouco, como manter a segurança em dia do seu condomínio, seus funcionários treinados e se estiver ligado aos órgãos de segurança e a sua vizinhança, todos ganham.

Chamamos isso de colmeia de segurança. Se houver, em cada parte do bairro, uma câmera voltada para a rua, e uma boa comunicação entre os condomínios, com certeza aquele bairro será mais seguro”, explica José Elias de Godoy, especialista em segurança condominial e capitão da reserva pela PM.

Para tanto, é preciso que condomínios, comércios, casas e até a polícia consigam se organizar para atender objetivos em prol de uma determinada região ou vizinhança.

Na cidade de São Paulo, por exemplo, há diversos programas voltados para ruas, quarteirões ou bairros inteiros.

Veja abaixo como a união de dois programas comunitários de segurança - o City Câmeras (da prefeitura) e CONSEGs (de âmbito estadual),  integrados à polícia e com envolvimento de síndicos - , podem ajudar no combate à violência de uma determinada região, bairro ou até cidade.

Exemplos que vêm de fora

“Muitas vezes, o cidadão comum não enxerga que pode ajudar muito a segurança do seu bairro apenas prestando atenção em coisas simples, como um carro que de repente passou quatro, cinco vezes na sua rua”, explica Elias de Godoy.

Ele explica que em países como o Japão, a cultura da segurança comunitária é muito forte, o que ajuda no policiamento e a manter baixos os índices de criminalidade.

“Em locais onde tudo é filmado, e que a vizinhança está de olho no que acontece na rua, é mais difícil acontecer uma ocorrência. Com certeza alguém mal intencionado vai optar por um local com menos chances de ser pego, ou da sua imagem ser registrada”, argumenta ele.

Outro exemplo vem de Londres. O programa londrino concentra câmeras onde há taxas maiores de crimes e de problemas como depredação de bens públicos: São cerca de 500 mil câmeras em uma área bem inferior à da cidade de São Paulo.

“Londres tem um projeto pioneiro de vídeomonitoramento e tem tido uma ótima resposta”, aponta o especialista em segurança, Nilton Migdal, especialista em segurança.

Projeto City Câmeras, em São Paulo

A cidade de São Paulo segue a tendência mundial de monitorar cada vez mais suas vias – seja a partir de câmeras da prefeitura ou da iniciativa privada.

Com a expansão e barateamento de diversos equipamentos, a grande maioria dos condomínios pode dispor de câmeras de CFTV (circuito fechado de televisão) com uma boa resolução. 

A ideia é conectar essas câmeras – e seu armazenamento – com a polícia, de forma a manter áreas maiores vigiadas.

“Se acontece algo estranho, como um roubo de carro, por exemplo, se aquela rua for filmada pelo condomínio, conseguimos ver a que horas isso aconteceu, ou até o rosto de quem levou o carro”, elabora Nilton Migdal.

Esse é um dos pilares do City Câmeras, um programa da prefeitura de São Paulo.

Para se cadastrar, os condomínios precisam apenas ter uma câmera que atenda às exigências do programa e contratar o serviço de armazenamento dessas imagens em nuvem com uma empresa parceira da prefeitura.

Conselhos de segurança - CONSEGS

Ainda em SP, uma das bases da segurança comunitária no estado são os Consegs, os conselhos de segurança.

O site do programa explica o que são os Consegs:

As reuniões são mensais e contam com a presença de diversas lideranças do local, como o delegado da polícia civil, o responsável pelo batalhão da PM da área, da Guarda Civil, e representantes de serviços da prefeitura, entre outros.

 “É muito importante que os condomínios, seja pelos síndicos ou conselheiros, integrem esse tipo de reunião. Ajuda muito a melhorar a segurança não só do condomínio, mas de toda a área”, explica Hubert Gebara, vice-presidente de condomínios do Secovi-SP.

O impacto de uma sociedade atuante nos Conselhos de Segurança é positivo não apenas para quem participa, mas para todos no entorno.

É muito bom que os síndicos realmente tomem parte nessas reuniões. Assim, conseguem cobrar melhor as autoridas competentes e também recebem informações valiosas sobre seu bairro, que tipo de trabalho o poder público está fazendo ali, quais os problemas dos outros moradores. É uma experiência válida, sim”, argumenta Nilton Savieto, síndico profissional.

Ele conta que durante os anos em que participou do Conseg da Vila Mariana, sua área de atuação, sempre que aderia a um programa, como o Vigilância Solidária, os porteiros recebiam aconselhamento da PM, de forma a consgeuir agir de forma preventiva.

É fato que nem todos os conselhos de segurança funcionam da mesma maneira, mas também é verdade que isso pode depender também da população que frequenta o local.

"Vejo muitos comentários positivos sobre os Consegs do Morumbi, Vila Madalena e Itaim. Quando há essa sinergia entre governo e sociedade civil, a tendência é realmente melhorar os índices de criminalidade e a qualidade dos serviços da prefeitua", analisa Ricardo Karpat, diretor da Gábor RH

Caso prático 1: Conseg + City Câmeras

Dois síndicos que estão muito satisfeitos com a atuação do Conseg de seu bairro são Luciano Gennari e Carlos Abreu, este atual secretário do Conseg do Portal do Morumbi.

Carlos atua há três anos no conselho de seu bairro.

“Comecei com aquele pensamento de que ‘alguém deveria fazer algo’ sobre os problemas do entorno. Cheguei a conclusão que essa pessoa era eu mesmo”, conta.

Ele explica que muitos moradores do bairro se mobilizam para ir às reuniões apenas quando há problemas sérios, como assalto ou sequestro-relâmpagos – uma realidade que o bairro, hoje, não enfrenta com tanta periodicidade.

“Se eu quero que a cidade fique limpa, eu limpo a frente da minha casa. É a mesma coisa com a segurança dos condomínios. Com ações mais articuladas entre o poder público e os cidadãos, conseguimos avançar com mais facilidade ”, exemplifica ele. 

Essa também é a sensação do síndico Luciano Gennari. Para ele, além de participação mais ativa na vida da comunidade, integrar o Conseg é importante porque te coloca em contato com as pessoas que são realmente responsáveis pela área.

De carros que eram abandonados na rua e ficavam meses ali, ocupando vagas, à poda de árvores e demandas com a PM e com a prefeitura, ele afirma que o quadro geral é muito positivo.

“Quantas vezes liguei na prefeitura e abri 4 ou 5 protocolos e a demanda demorava muitos meses para ser atendida, não havia um retorno, um posicionamento, nada. Aqui, se você tem um pedido, pode pedir, protocolar e no próximo mês o responsável pelo seu pedido se posiciona, explica se foi feito ou não”, enumera ele.

Carlos também explica que unido a mais síndicos, ele e Luciano conseguiram pleitear, com uma empresa parceira da prefeitura, um desconto na mensalidade do City Câmeras.

“Quando unimos forças, seja para economizar, gerar mais segurança para toda a região ou para cobrar serviços públicos de qualidade, estamos fazendo a diferença. E o que esperamos é que cada vez mais síndicos se unam a nós, não apenas no nosso Conseg, mas também em diversos outros, de forma a criar uma rede melhor para todo mundo”, explica Carlos.

Caso prático 2: Uma empresa para toda comunidade

O síndico e corretor de seguros Carlo Stefanini viu o nível de segurança das ruas próximas ao seu condomínio aumentar consideravelmente depois que conseguiu costurar um acordo entre empreendimentos de três ruas e uma empresa de segurança.

"No começo de 2016, estava muito difícil a questão da segurança aqui. Roubo de carro, celular, bolsa. Estávamos realmente nos sentindo inseguros. Ano passado, estavam roubando já na esquina do nosso prédio", conta ele.

Desde essa época ele tentava, sem sucesso, reunir mais síndicos para aprovar a contratação de uma empresa de segurança e vigilância. 

O primeiro passo foi colocar uma câmera apontada para a esquina problemática, o que já começou a surtir efeito ali - apesar de nas redondezas, os vizinhos ainda sentiam-se inseguros.

"Consegui, depois de muito trabalho, reunir os síndicos dos 27 condomínios dessas três ruas, que formam um triângulo. Expliquei como uma câmera estava fazendo a diferença no local. Saímos da reunião com um prazo para todos fazerem as assembleias em seus respectivos condomínios, para discutir a aprovação da contratação", explica.

Depois de cotar com diversas empresas, Carlo optou por uma que já atuava na reunião, fazia um bom serviço e que respeitava o limite de preço afixado por unidade anteriormente.

"Nesse primeiro momento, 19 condomínios aderiram. Daí, elaboramos selos para carros e placas para os condomínios que estavam participando da ação, de forma a facilitar a identificação pela empresa de segurança. Desde então, mais 4 empreendimentos fazem parte da contratação, faltando agora só mais quatro para finalizarmos todos da região", conta o síndico.

Com a melhora na segurança, muitos empreendimentos migraram da portaria comum para a remota.

"Foi muito difiícil e trabalhoso todo esse processo. Mas está valendo muito a pena", finaliza ele.

Fontes: explica José Elias de Godoy, especialista em segurança em condomínios e capitão aposentado pela PM e colunista do SíndicoNet, Gabriel Karpat, diretor da administradora GK, Nilton MIgdal, consultor de segurança, Hubert Gebara, vice-presidente de condomínios do Secovi-SP, Luciano Gennari, síndico, Carlos Abreu, síndico e secretário Conseg Morumbi, Ricardo Karpar, diretor da Gábor RH, Carlo Stefanini, síndico