Economia verde

Como tornar seu condomínio o mais sustentável possível

Das soluções simples às complexas, conheça e confira as que fazem mais sentido para o perfil do empreendimento e dos condôminos

Por Inês Pereira

12/06/19 04:34 - Atualizado há 32 dias


Você tem todas as razões do mundo para pensar em soluções que mudem a forma como o seu condomínio usa energia e água. Ou mesmo, como cuida dos seus espaços verdes e destina o lixo. 

Será que as pessoas – moradores e funcionários – fazem um consumo consciente dos recursos naturais? O primeiro exercício para transformar uma situação de desperdício e falta de informação é responder com toda a franqueza:

Como jardins são regados e áreas externas lavadas? Que tipo de iluminação é utilizada nos espaços comuns? E quanto ao lixo, como é coletado e destinado? Quais são os critérios de uso e manutenção de equipamentos? O condomínio já fez campanhas de conscientização com os moradores? 

Você até pode concluir que há tudo por fazer no seu condomínio. A boa notícia é que dá para mudar o quadro com ações – muitas delas bem simples, que contarão com a sua boa gestão de projetos e o engajamento da comunidade.

Um condomínio mais sustentável valoriza o patrimônio. A sociedade cobra cada vez mais a postura responsável dos gestores. E o mercado, idem. 

ECONOMIA DE ÁGUA

Se a crise hídrica que o estado de São Paulo viveu entre 2014 e 2016 não está fresca na memória, deveria estar. Fechar a torneira e eliminar o desperdício de água se tornou obrigatório. 

Vejamos o que se pode fazer pelo meio ambiente e para reduzir a conta do condomínio.

BUSQUE VAZAMENTOS

“O primeiro passo, antes de iniciar qualquer investimento, é identificar as perdas e desperdícios com uma inspeção minuciosa em todos pontos de consumo de água das áreas comuns”, orienta Anderson Benite, engenheiro civil e consultor em Inovação Tecnológica e Green Building. 

Verifique:

Esse trabalho investigativo pode ser de grande valia para reduzir o gasto do condomínio – entre 20% e 30% na conta. Não percebemos quanto se desperdiça com gotas e fiozinhos de água caindo sem parar. Às vezes, tão discretamente, que levamos um susto ao calcular o quanto de água escorreu pelo ralo. 

De fato, veja a conta que Alexandre Furlan, fundador e diretor do Instituto Muda esboça: 

Uma torneira gotejando desperdiça 46 litros por dia, equivalente a 1.380 litros por mês. Um filete de mais ou menos 2 milímetros deixa escorrer 4.130 litros por mês.

Outras ações simples podem ser feitas. Benite sugere: 

Dica: Elabore de uma planilha simples com o consumo mês a mês. Preencha com base nas contas de água para realizar o monitoramento contínuo. Será útil para identificar rapidamente picos que aconteçam e, muitas vezes, representam vazamentos. Apresente os resultados à equipe de administração, e também aos condôminos para aumentar a conscientização. 

CAPTAÇÃO DA ÁGUA DA CHUVA

Independentemente do tipo de construção, toda cobertura tem um ralo para que a água da chuva escorra. Essa água, geralmente, fica armazenada em algum lugar perto do subsolo, para depois ser bombeada para fora.

O condomínio perde a água da chuva. Com pouco investimento, o síndico consegue recuperar fazendo um pequeno tratamento com cloro e transferindo para uma torneira com um trabalho simples de encanamento. Isso porque cerca de 80% do sistema já está pronto”, explica Furlan. 

Vários condomínios novos já tem uma estrutura instalada para a reutilização. Nesses casos, diz Furlan, o condomínio nem precisa fazer adaptações. “Mas se o condomínio antigo quiser fazer, é simples e barato”.

O condomínio não pode levar essa água aos moradores, mas pode usar para os serviços de manutenção e limpeza – por exemplo, regar as plantas, fazer a limpeza das garagens, lavar as áreas comuns. 

SUBSTITUIÇÃO DE PEÇAS SANITÁRIAS

Uma solução que funciona tanto para áreas comuns do condomínio quanto para as unidades. Sendo que, nas áreas comuns, vale a pena investir especialmente onde o uso por moradores, funcionários ou convidados é mais intenso.

Confira alguns dispositivos que podem fazer parte da sua estratégia de economia de água:  

Dica: Apartamentos entre o primeiro e o terceiro andar, têm a pressão da água muito maior do que os moradores precisam. “A água sobe e depois desce. Conforme vai subindo, a pressão vai diminuindo. Se esses moradores colocarem os equipamentos, conseguem uma economia bem grande”, diz Furlan. 

MEDIÇÃO INDIVIDUALIZADA DE HIDRÔMETROS

Desde meados dos anos 2000, os condomínios são obrigados a fazer a preparação para a individualização, deixando uma prumada por apartamento. Coisa que não havia nas construções mais antigas.

Ocorre que muitos condomínios ainda não possuem a medição de água individualizada e os vazamentos passam despercebidos pelos ocupantes. Resultado: o impacto nas contas de água é compartilhado entre todas as unidades. 

“Normalmente, essa medida apresenta maior necessidade de investimento, mais tempo e pode gerar mais transtorno para os ocupantes. No entanto, os resultados são muito significativos – mais de 30% de economia somente com essa medida”, avalia Benite.

PROGRAMAS DE USO RACIONAL DA ÁGUA

Há 10 anos, a Lello pilota o seu  Programa Água Perda Zero nos condomínios que administra. A partir de um raio-x do condomínio para constatar a situação do consumo de água – prováveis pontos de perda e vazamentos –, o programa desenvolve uma estratégia de consumo racional de água com os ajustes técnicos necessários e a conscientização dos condôminos.

Em números, a economia gerada pelo programa é em torno de 33%.

“As ações de economia e uso racional enraizaram. Novos costumes envolvendo tempo de banho, lavagem de roupa e limpeza de calçadas foram determinantes para a mudança de postura”, conta Raquel Tomasini, engenheira e especialista da Lello.  

ECONOMIA DE ENERGIA

Caminhamos um bocado desde o movimento de substituição de lâmpadas incandescentes por fluorescentes, a partir de 2014. Já se sabia que as fluorescentes chegam a ser 79% mais econômicas e produzem 70% menos calor que as incandescentes.

Atualmente, boa parte dos condomínios investe na troca das lâmpadas fluorescentes por LED. Nas áreas comuns, as lâmpadas de LED trazem ganhos consideráveis na conta de consumo. Comparativamente, são muito mais duráveis e econômicas do que as outras. 

E o benefício da substituição tem outro aspecto – o impacto ao meio ambiente e o descarte. De acordo com Furlan, a lâmpada fluorescente compacta queima muito e gera resíduos. “Se o condomínio quer descartar da maneira correta, tem de pagar para esse descarte. Isso vai entrando na conta”.

Outro potencial de economia é a atualização e a manutenção dos elevadores, que geram muito consumo de energia. Importante fazer a verificação e a manutenção de bombas do condomínio. Isso gera muita economia. 

Sem falar na mais simples das soluções, que também dá retorno, que o aviso “Proibido chamar os dois elevadores ao mesmo tempo”.  

ENERGIA SOLAR FOTOVOLTAICA

No nosso país, o projeto de energia solar caminha ao lado de países que se preocupam em gerar energia limpa e minimizar os impactos na saúde do planeta. Nos condomínios, a solar fotovoltaica começa a ser realidade. 

A CPFL lançou recentemente a campanha PromoSolar, parte do Programa de Eficiência Energética da Agencia Nacional de Energia Elétrica (Aneel), voltada para condomínios, com desconto de 50% na instalação dos sistemas solares.

De acordo com Felipe Henrique Zaia, gerente de Eficiência Energética da CPFL, a meta de instalação é de até 700 quilowatts-pico (kWp) em sistemas fotovoltaicos na área de concessão da distribuidora CPFL Paulista – em um raio de 100 quilômetros a partir de Campinas.

Para a instalação dos sistemas, basta ter telhados em bom estado nas áreas comuns, como academias, salões de festas, churrasqueiras, escritórios administrativos, portarias, estacionamentos, ou até mesmo no solo caso o condomínio tenha espaço”, descreve. 

Em condomínios verticais, o espaço de telhado normalmente é menor, porém, de acordo com Zaia, não existe impeditivo para a instalação das placas solares. 

GESTÃO DOS RESÍDUOS

A coleta seletiva é totalmente conectada a uma ação, a uma vontade do morador de fazer a separação. É uma questão cultural”, resume Furlan, do Instituto Muda. 

Já faz alguns anos que os meios de comunicação vão batendo nessa tecla de que as pessoas têm de fazer a separação dos resíduos. “Mas o resultado acaba prejudicado, se elas não têm estrutura, ou seja, container para jogar o reciclável, armazenamento correto, treinamento, coleta profissional”, analisa.

O condomínio que queira ter o mínimo de ações sustentáveis precisa se preocupar com a destinação do seu lixo. Para isso, ele pode optar por dois caminhos:

 

DESCARTE DO ÓLEO DE COZINHA

Apesar da divulgação, muita gente ainda não sabe exatamente o que pode ser reciclado e o que não pode. O óleo de cozinha é um dos materiais que continua sendo descartado do jeito errado

“Em alguns dos nossos condomínios, os moradores despejam o óleo direto na pia da cozinha. Vai direto para o encanamento, entope toda a instalação, tem um custo de manutenção elevadíssimo e gera um grande transtorno – não só para o condomínio como para o meio ambiente”, afirma Aldo Castro, síndico profissional e fundador da Prestto. 

A solução de Castro foi investir na realização de campanhas de conscientização para a coleta em garrafas PET. A destinação é feita por ONGs parceiras, que passam nos condomínios e retiram esse material. “Com isso, as pessoas deixaram de despejar o óleo dentro da pia”.

Dicas sustentáveis para reduzir os resíduos no condomínio

CASOS PRÁTICOS

Para a alegria geral, encontramos diversas histórias inspiradoras de condomínios em que as práticas sustentáveis, o consumo consciente e a responsabilidade sócio-ambiental já fazem parte do dia a dia. Separamos duas delas.

CASO 1: RECICLAGEM DE 22 TONELADAS DE COLETA SELETIVA

“Meu objetivo, quando me tornei síndico há cinco anos, era estruturar o sistema de coleta de lixo, partindo da reciclagem de material orgânico, que representa 50% do lixo total.

Encontramos um parceiro bem bacana, o Morada da Floresta, que nos ajudou a desenvolver uma composteira em forma de cilindro aerado, que utiliza serragem em vez de minhocas e ocupa bem menos espaço.

Começamos com duas composteiras, e hoje temos 12 – que comportam algo em torno de 22 toneladas de lixo. Essa compostagem se torna adubo e fertilizante, que utilizamos nos nossos jardins. E o excedente, doamos. 

O material reciclável é vendido para cooperativas e o dinheiro apurado, distribuído para os funcionários da limpeza.

O investimento total do projeto ficou em torno de R$ 5 mil. Mas compensou, diante do que gastávamos em saco de lixo por ano – cerca de R$ 4 mil – e em material para a área verde. 

O projeto do lixo acabou viabilizando outros projetos, como a criação da horta comunitária. Mas o principal foi a própria formação da área verde. Quando o condomínio foi entregue pela construtora, tínhamos apenas duas árvores. Hoje, temos mais de 100, plantadas com a participação dos moradores. 

O primeiro plantio foi no Dia da Árvore, em que cada pessoa foi lá plantar uma árvore. A intenção era que elas, mais do que plantassem algo, criassem raízes no condomínio. Assim, foram se apropriando dos seus espaços e, de fato, vivendo em comunidade.”  

Rogério Trava Airoldi, síndico morador

 

CASO 2:  AS CRIANÇAS ENGAJANDO OS PAIS NA SUSTENTABILIDADE

“Temos como política soltar comunicados com temas ligados a gestão de meio ambiente. A cada mês, trabalhamos um tema novo e vamos esclarecendo sobre  economia de água, dicas dentro de casa, nas áreas comuns e no estacionamento. 

Mas, mais importante do que envolver o próprio morador, é envolver as crianças. Elas são os principais embaixadores dessa questão de gestão do meio ambiente. 

Quando você consegue envolver a criança, essa casa terá uma gestão ambiental mais bacana. Os pais acabam fazendo, pela questão emocional, a partir do momento que envolvemos os filhos. Caso da coleta seletiva feita pela família.

Nas datas festivas como Natal, Páscoa, Festa Junina, Dia das Mães etc., realizamos oficinas com as crianças. Elas usam todos os produtos que coletaram durante determinado período. Com a ajuda dos monitores, montam a decoração do condomínio. 

Já fizemos árvores de Natal com garrafa pet, lembrancinha de Dia das Mães com material reciclável, porta-retrato com jornal coletado, brinquedos, entre outros objetos. São ações simples que engajam as crianças e educam os pais. E com pessoas conscientes, fica muito mais fácil ampliar as boas práticas dentro do condomínio.”

Aldo Castro, síndico profissional

Baixe os cartazes de comunicação com condôminos:

EM RESUMO

Para mudar o perfil convencional do seu condomínio e dar uma pegada mais sustentável, você pode investir em:

 

Mudança de mentalidade

Um dos grandes desafios para realizar transformações no condomínio é a questão cultural. Segundo os especialistas, por vezes, representa um entrave até maior do que o fator financeiro. 

Alguns exemplos levantados na apuração do SíndicoNet dizem respeito ao comodismo das pessoas de maneira geral. Há resistência em tomar banhos mais curtos, substituir equipamentos com baixa eficiência energética, adotar hábitos mais colaborativos e econômicos – chamar apenas um elevador ou subir/descer poucos andares. Por aí vai. 

A coleta seletiva é um ponto em que, de fato, não há uma tecnologia para realizar. Você pode colocar um equipamento de economizar água, que ele fará isso para você. Mas se você não efetivamente usar a sua mão e colocar ela na lixeira, nada acontecerá. 

O ecossistema do condomínio está todo interligado. Ao reduzir o consumo de água, o condômino também reduzirá o consumo de energia. Quando você está com o chuveiro ligado, está usando gás ou energia elétrica. 

Somos parte de um setor grande e respeitável. Imagine a amplitude do impacto positivo na sociedade, quando conseguirmos, de fato, praticar um consumo mais consciente dos recursos naturais! 

Fontes consultadas: Anderson Benite (engenheiro civil e consultor em Inovação Tecnológica e Green Building); Alexandre Furlan (fundador e diretor do Instituto Muda); Raquel Tomasini (engenheira e especialista da Lello); Felipe Henrique Zaia (gerente de Eficiência Energética da CPFL); Aldo Castro (síndico profissional e fundador da Prestto) e Rogério Trava Airoldi (síndico morador).