As eleições passaram, mas a rivalidade entre vizinhos ficou?
As urnas fecharam, mas os vizinhos continuam morando no prédio. O que síndico e morador podem fazer para recuperar a convivência sem exigir que ninguém mude de opinião
As urnas fecharam, mas a vida no condomínio não recomeça do zero: o vizinho de andar continua morando lá, com o elevador, o portão, a assembleia e as áreas comuns para compartilhar.
É esse o nó que a eleição presidencial mais polarizada da história recente deixou nos prédios brasileiros — e é dele que trata a convivência no condomínio pós-eleição: não um resultado a discutir, mas uma relação a reconstruir.
Quatro especialistas ouvidos pelo SíndicoNet descrevem o mesmo fenômeno por ângulos diferentes: bandeiras em sacadas, grupos de WhatsApp que viraram palanque, funcionários pressionados a declarar voto, vizinhos que pararam de se cumprimentar.
Nenhum deles trata o problema como questão de opinião — todos tratam como questão de conduta, e é essa distinção que organiza o que vem a seguir: onde termina a liberdade de expressão, o que o síndico pode fazer sem virar árbitro político e como o morador reconstrói uma relação sem abrir mão do que pensa.
O que ficou depois da urna
Segundo o advogado Yuri Oliveira, o traço mais novo desta eleição não foi o volume de discussões, mas a identificação discreta: cores de roupa, adereços, números viraram sinalização política dentro do condomínio.
Com isso, os moradores passaram a classificar uns aos outros só pela aparência: "esse vota no candidato A, esse vota no candidato B", antes mesmo de qualquer conversa acontecer.
"Esse mapeamento não desaparece com o fim da apuração: o derrotado tende a olhar com desconfiança para quem venceu, e o vencedor pode reagir com superioridade ou revanchismo", diz Oliveira.
Ele recomenda que o primeiro movimento do síndico seja, literalmente, "desmontar o palanque interno" — tratar como pendente qualquer bandeira, adesivo ou cartaz que não foi retirado durante o período eleitoral, e reabrir essa conversa agora, sem o calor do pleito, para resolver o que a notificação formal não resolveu.
Onde termina a liberdade de expressão
Para o advogado André Luiz Junqueira, o ponto de partida é simples: o condomínio não é um ambiente adequado para campanha ou disputa partidária, mas isso não suspende a liberdade de expressão de ninguém. Uma conversa informal sobre política entre vizinhos, dentro da unidade ou de passagem pelas áreas comuns, não justifica qualquer intervenção do condomínio.
A linha se desloca quando há desvio de finalidade: uso de área comum para comício, exibição de vídeos, distribuição de material de campanha, ou um grupo de WhatsApp de avisos condominiais que vira palco de propaganda.
Nas áreas privativas, Junqueira separa o que fica dentro da unidade do que é exposto para a coletividade — cartazes e adesivos voltados para corredores, fachadas ou vias públicas entram no campo das regras condominiais e, no caso de propaganda eleitoral em janelas residenciais, também da legislação eleitoral.
A base legal que sustenta a atuação do síndico é o artigo 1.336 do Código Civil, que lista os deveres do condômino quanto ao uso adequado da unidade, ao respeito ao sossego, à segurança e aos bons costumes.
"A liberdade de expressão deve ser respeitada, mas não representa autorização para ofender, ameaçar, discriminar ou perturbar os demais moradores", resume Junqueira. Passado esse ponto, a conduta pode ter consequências nas esferas cível e, em casos mais graves, criminal.
Exemplos de situações ocorridas em condominio e como contornar
Amanda Accioli listou algumas as ocorrências mais polêmicas que surgiram nos condomínios em que é síndica profissional.
Em um dos prédios, um morador pendurou uma bandeira enorme de partido na sacada, virada para a rua. Em poucos dias começaram as reclamações e, logo depois, apareceu uma bandeira do lado oposto no andar de cima.
"Virou uma 'guerra de sacadas'. Conversei pessoalmente com os dois antes de qualquer notificação, expliquei que o regimento daquele condomínio proibia a fixação de faixas e objetos na fachada e que a regra valia para qualquer bandeira, de time, de partido ou de propaganda. Um tirou na hora. O outro só tirou depois da notificação formal, mas tirou", relata.
Em outro condomínio, um morador resolveu fazer "campanha" do próprio apartamento com um megafone, em pleno sábado de manhã.
Ele ficava gritando "Fora, ...!", com o nome do candidato de quem não gostava, para quem passasse na calçada e, claro, para o prédio inteiro ouvir.
"Recebi umas dez mensagens em meia hora. Pedi ao porteiro que interfonasse primeiro e, como não adiantou, fui até lá. A questão nem era a opinião dele, era o barulho e o sossego dos vizinhos, que é um dever de todo condômino. Registrei a ocorrência e enviei advertência por escrito", ensina.
E, claro, o clássico: o grupo de WhatsApp. Em um dos condomínios, alguém compartilhou um vídeo político num sábado à noite e, no domingo de manhã, já tinha morador saindo do grupo, outro xingando, outro dizendo que ia "resolver lá embaixo".
"Fechei o grupo para que só os administradores pudessem enviar mensagens, publiquei um aviso lembrando a finalidade do grupo e reabri dois dias depois, já com as regras fixadas na descrição. Nunca mais teve problema."
Veja mais sobre grupo de WhatsApp no próximo tópico.
O grupo de WhatsApp
Nenhum dos especialistas entrevistados trata o grupo de WhatsApp do condomínio como um território neutro. Para o mediador de conflitos Carlos Savoy, o aplicativo agrava qualquer discussão política por três motivos estruturais:
- Existe plateia (todo mundo lê);
- Existe registro permanente (nada se apaga de fato)
- Não existe linguagem não verbal (o tom se perde, e a interpretação piora).
"Toda mensagem política no grupo é, na prática, uma declaração feita para os outros moradores — não para o interlocutor", observa Savoy.
A recomendação prática de Amanda Accioli, síndica profissional e advogada, é regra escrita: o grupo oficial do condomínio serve só para assuntos condominiais, sem política, religião, correntes ou vendas — regra que deve constar da descrição do grupo e, idealmente, ser referendada em assembleia para virar norma oficial.
Ela também recomenda separar o canal de avisos do canal de solicitações, o que por si só reduz boa parte dos atritos.
Quando a discussão já está instalada, Savoy orienta o síndico a moderar a regra, nunca o conteúdo — nunca dizer quem tem razão, apenas fazer cumprir o combinado de convivência. Remover o morador do grupo e conversar em particular costuma funcionar melhor do que arbitrar publicamente quem está certo.
O que o síndico pode fazer sem virar "fiscal da opinião alheia"
Aqui os advogados ouvidos convergem ponto a ponto. Para Junqueira, "o síndico não deve assumir o papel de fiscal das opiniões políticas dos moradores" — sua responsabilidade é preservar a convivência e garantir que espaços e canais oficiais sejam usados para o propósito para o qual foram criados.
Não cabe agir sobre uma simples conversa política, mesmo com opiniões divergentes; cabe agir quando ela evolui para xingamento, ameaça, constrangimento ou perturbação do sossego.
Accioli aplica o mesmo princípio em casos concretos: ao notificar um morador que descumpriu a regra da fachada com uma bandeira, ela trata igual quem está "do lado" que for — inclusive ex-síndicos ou conselheiros influentes.
"A régua é o regimento interno, não quem está do outro lado", resume. Isso protege o síndico: quando alguém reclama de tratamento desigual, a resposta é mostrar a regra e que ela foi aplicada do mesmo jeito para todos.
Advertência e multa têm respaldo no artigo 1.336 do Código Civil e na convenção ou regimento interno do condomínio — mas, segundo Junqueira, só são juridicamente seguras quando seguem o procedimento previsto (direito de defesa incluído) e punem a conduta concreta, nunca a preferência política de quem a praticou.
"Não se trata de censurar opiniões, mas de impedir que o exercício da liberdade de expressão seja utilizado como justificativa para desrespeitar os direitos dos demais", afirma.
Proteger o funcionário contra pressões e assédio de moradores
Um ponto em que os quatro especialistas ouvidos não deixam margem para dúvida: funcionário do condomínio não pode ser pressionado a declarar voto.
Amanda Accioli relata o caso de um morador que, durante dias, abordou o porteiro insistindo sobre em quem ele "deveria" votar e distribuindo material de campanha. O funcionário procurou a síndica constrangido, com medo de represálias.
"Funcionário não pode ser pressionado a votar em ninguém, e o condomínio, como empregador, tem o dever de protegê-lo", afirma.
Junqueira reforça o enquadramento jurídico: o ambiente de trabalho não deve ser usado para campanha nem para pressão sobre empregados, e a conduta pode caracterizar assédio.
Na prática, isso significa que o síndico deve tratar a abordagem política a um funcionário com o mesmo rigor de qualquer outra forma de assédio no trabalho: conversar com firmeza com quem pressiona, registrar o ocorrido e deixar claro à equipe que pode procurar a administração sempre que se sentir constrangida.
Passo a passo do morador que ainda está magoado
Para Carlos Savoy, reconstruir uma relação rompida pela política segue uma lógica que não começa pela própria política. O primeiro passo é reconhecer o tipo de conflito: divergência política entre vizinhos é, na classificação da mediação, um conflito de relação e de valores — não de fatos.
Isso muda a abordagem: não adianta argumentar, mas, sim, validar o sentimento do outro sem concordar com a opinião ("percebo que o senhor está chateado") e buscar o interesse comum por trás da divergência.
A reconstrução, segundo ele, não acontece em grupo nem por escrito. "É uma conversa de porta, um café, um telefonema, sem plateia. E não deve começar falando sobre a eleição, mas por qualquer outro assunto comum - o portão, a obra do vizinho, uma tarefa compartilhada. "Isso reconstrói a confiança mais depressa do que qualquer tentativa direta de 'fazer as pazes'".
Muitas vezes, lembra Savoy, o episódio político foi só o estopim de uma tensão que já existia antes — dívida, barulho, vaga de garagem, mágoa antiga.
Amanda Accioli recomenda ainda dar um tempo antes de qualquer iniciativa formal de reconciliação: nas primeiras semanas após o resultado, os ânimos seguem quentes, e campanhas de "vamos conviver em paz" tendem a soar como provocação.
Eventos sem pauta política explícita — uma festa temática, um café da manhã, uma confraternização — funcionam melhor, porque devolvem o vizinho ao papel de vizinho, não ao de adversário.
Ações preventivas para a próxima eleição
Os quatro especialistas concordam que o momento de agir é agora, não na próxima véspera eleitoral.
Yuri Oliveira resume o problema: "entra ano, sai ano, e entra eleição, sai eleição, e a gente não coloca essa regulamentação do comportamento eleitoral no regimento".
A recomendação prática é registrar, em convenção ou regimento interno, regras claras sobre uso de bandeiras, adesivos e campanha nas áreas comuns — o que já é possível hoje, sem esperar a próxima eleição.
Savoy propõe um caminho complementar: em vez de simplesmente proibir o tema, criar um espaço e um tempo delimitados para ele — um ciclo de conversas, um encontro com regra de convivência clara. "Quando a política tem um lugar, ela deixa de invadir todos os outros", explica.
Para Accioli, a assembleia é o terreno mais seguro para blindar decisões coletivas (obras, segurança, orçamento) da disputa ideológica: conduzida com dados técnicos — orçamento, laudos, propostas comparadas —, sobra pouco espaço para a discussão ideológica.
"Se alguém tenta levar o assunto para o lado político, dizendo 'isso aí é coisa de quem pensa como fulano', eu interrompo com educação e trago de volta: 'Pessoal, aqui a gente está decidindo sobre a impermeabilização da laje. O vazamento não tem partido.' Funciona, e às vezes até arranca uma risada que quebra o clima", exemplifica.
A síndica profissional sempre lembra aos moradores que o condomínio é o maior patrimônio da maioria das famílias que estão ali.
"Uma obra adiada por birra, uma câmera de segurança que não é aprovada porque o grupo X não quer dar razão ao grupo Y, isso desvaloriza o imóvel de todos. Quando a pessoa entende que está brigando contra o próprio bolso, a conversa muda."
O que é conversa, o que é infração
| Situação | Conversa protegida | Pode configurar infração |
|---|---|---|
| Conversa informal entre vizinhos sobre política | ✅ Liberdade de expressão, sem intervenção do condomínio | — |
| Bandeira, adesivo ou cartaz de partido em fachada, sacada ou corredor | — | ⚠️ Alteração de fachada / uso indevido de área comum, sujeita a advertência e multa conforme regimento |
| Uso de área comum para comício, distribuição de material ou exibição de vídeo | — | ⚠️ Desvio de finalidade do espaço comum |
| Mensagem política isolada no grupo oficial do condomínio | ✅ Se pontual e sem repetição, cabe advertência de uso do canal | ⚠️ Repetida, ou após aviso, pode justificar remoção do grupo |
| Pressão a funcionário para declarar voto ou apoiar candidato | — | ⚠️ Pode caracterizar assédio; condomínio deve proteger o empregado |
| Discussão que evolui para xingamento, ameaça ou perturbação do sossego | — | ⚠️ Infração ao art. 1.336 do Código Civil e ao regimento interno |
Perguntas frequentes
O síndico pode proibir política no grupo de WhatsApp do condomínio?
Sim. O grupo oficial pode ter regra escrita restringindo o uso a assuntos condominiais — a recomendação dos especialistas é registrar isso na descrição do grupo e, se possível, levar a regra para aprovação em assembleia, para que vire norma oficial e não apenas orientação do síndico.
É proibido colocar bandeira ou adesivo político na sacada do apartamento?
Dentro da unidade, não. Mas bandeiras, adesivos e cartazes voltados para fachada, corredor ou via pública entram nas regras de alteração de fachada e uso de área comum do regimento interno, podendo gerar notificação e multa independentemente do partido ou candidato.
O síndico pode notificar um morador por causa de discussão política?
Só quando a conduta — não a opinião — descumpre o regimento: xingamento, ameaça, perturbação do sossego ou uso indevido de área comum. A notificação deve seguir o procedimento da convenção, com direito de defesa, e ser aplicada da mesma forma a qualquer morador, independente do lado político.
Funcionário do condomínio pode ser pressionado a dizer em quem vai votar?
Não. Pressionar um funcionário a declarar voto ou apoiar um candidato pode caracterizar assédio, e o condomínio, como empregador, tem o dever de protegê-lo. O síndico deve intervir de forma firme e garantir que a equipe saiba que pode procurar a administração se isso acontecer.
Quando uma conversa política deixa de ser opinião e vira motivo de mediação?
Quando perde a simetria (só um lado pode se manifestar), o ritmo (vira perseguição repetida em vez de episódio isolado) ou o alvo (deixa de ser sobre a opinião e passa a ser sobre a pessoa). Nesse ponto, especialistas recomendam conversa individual antes de reunir os envolvidos.
O que fazer se a relação com um vizinho ainda está rompida por causa da eleição?
Especialistas recomendam retomar o contato por um assunto neutro, sem mencionar a eleição diretamente, e aceitar que a diferença de opinião pode continuar existindo sem impedir a convivência. A recomendação prática é simples: o resultado passou, a vizinhança continua.
O que fazer agora
A eleição não precisa ser resolvida para a convivência ser retomada — e, segundo os quatro especialistas ouvidos, não deveria nem ser tentada essa discussão.
O caminho prático é:
- revisar o que ficou pendente de bandeiras e material de campanha em área comum;
- colocar por escrito a regra de uso dos canais oficiais;
- proteger os funcionários de qualquer pressão política;
- e criar, nas próximas semanas, uma oportunidade de convívio sem pauta — é nela que o vizinho volta a ser vizinho.
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Fontes consultadas: André Luiz Junqueira (advogado), Amanda Accioli (síndica profissional), Carlos Savoy (mediador de conflitos), Yuri Oliveira (advogado)