Furto em condomínios
RS: Quadrilha usa dados e falhas para furtar apartamentos de luxo
Uma quadrilha especializada em furtos a apartamentos de luxo atuou em pelo menos oito estados do Brasil, usando brechas em sistemas de segurança e dados pessoais de moradores para entrar nos condomínios sem confronto físico. As investigações foram divulgadas pelo programa Fantástico, da TV Globo, no domingo (30).
O grupo não precisava render porteiros nem forçar entradas. Em vez disso, manipulava cadastros digitais, ligava para empresas de segurança se passando por moradores e usava redes sociais para selecionar vítimas.
A polícia identificou como figura central Vinícius Scarpari, cujo nome consta em pelo menos 30 boletins de ocorrência, quase sempre com comparsas diferentes.
Como as invasões aconteciam
Em 27 de fevereiro, em Belo Horizonte, um dos suspeitos ligou para a empresa de segurança do condomínio, identificou-se como morador e alterou o próprio cadastro, trocando o e-mail e inserindo a própria foto no sistema.
A partir daquele momento, as câmeras o reconheciam como um dos residentes do prédio. Ele entrou acompanhado de outras duas pessoas. Um subiu pela escada enquanto os demais tentavam acessar o andar pelo elevador, sem sucesso por falta de senha.
Cerca de uma hora depois, os três deixaram o local carregando uma mochila que não tinham quando chegaram.
Em Porto Alegre, em 7 de março, uma mulher usou o reconhecimento facial do sistema de segurança para entrar no prédio. Um homem entrou logo após ela. Os dois saíram com dinheiro em dólares e reais, talões de cheques, joias, bolsas de grife e um casaco de pele.
O mesmo carro alugado apareceu em Belo Horizonte, Porto Alegre e São Paulo, o que levou a polícia a conectar os casos. Nos dois primeiros estados, a quadrilha conseguiu realizar os furtos; na capital paulista, houve apenas tentativa.
Em 25 de abril, Vinícius voltou a Porto Alegre. Desta vez, uma mulher ligou para o sistema de segurança do condomínio dizendo ser Maria, do apartamento 301, e pediu que liberassem a entrada de uma suposta neta chamada Laura Rocha.
No dia seguinte, outra mulher entrou no prédio afirmando ser Laura, já cadastrada no sistema, e subiu acompanhada de Vinícius e de outro homem. Os três foram até o oitavo andar.
Vinícius vasculhou o apartamento usando luvas. Na saída, tiveram dificuldade para transportar um cofre e usaram um carrinho de compras do próprio condomínio, que tombou no saguão sob o peso.
As autoridades estimam que foram levados mais de R$ 800 mil em armas, joias e dinheiro nesse episódio.
Escolha das vítimas e divisão de funções
A seleção das vítimas começava nas redes sociais. Fotos com joias, roupas de grife e registros de viagens ajudavam a identificar quem tinha dinheiro e quando não estaria em casa.
Em seguida, os criminosos buscavam dados pessoais. Um delegado da Polícia Civil do Rio Grande do Sul afirmou que o grupo obtinha informações pela chamada Deep Web, inclusive comprando cadastros de atas condominiais.
Segundo o delegado, esse tipo de informação permite identificar nomes de moradores e os apartamentos em que vivem, facilitando a escolha das vítimas e a preparação das invasões.
A investigação também revelou a divisão interna de tarefas. Vinícius era um dos principais executores e se especializou em arrombar cofres.
Outros integrantes eram responsáveis por facilitar o acesso aos prédios. Havia ainda os chamados "olheiros", posicionados do lado de fora, e um integrante encarregado de financiar as viagens, pagando passagens de ônibus, alimentação, combustível e pedágios.
Um dos envolvidos, Alberto Bernardo Alves, já havia aparecido em uma tentativa de furto ao apartamento do ex-presidente Fernando Collor de Mello, em Alagoas, em 2024.
O "arquiteto" do grupo
A investigação teve início em Goiânia. Seis meses após identificar os demais envolvidos, os investigadores chegaram a Victor Gabriel da Silva, conhecido como Fubeta, apontado como o "arquiteto" e chefe da quadrilha.
Segundo a investigação, ele viajava com frequência para destinos turísticos e chegou a ser flagrado em imagens em Fernando de Noronha e na República Dominicana.
Em um áudio, Fubeta afirma: "No crime, tudo que nós temos é nosso nome. Dinheiro é consequência." Em outra gravação, ele conversa com Alberto sobre a venda de joias roubadas.
Após os crimes, segundo a polícia, os integrantes se separavam e dividiam os produtos furtados entre si, de modo que uma eventual prisão não resultasse na perda de todo o material roubado.
Em Goiânia, vítimas relataram o impacto das invasões. Um dos moradores afirmou que ficou com a sensação de estar exposto, apesar de acreditar que estava seguro.
Uma mulher relatou que os filhos ainda não superaram o episódio. Segundo ela, o filho deixou de dormir no próprio quarto por medo de que ladrões voltassem ao local.
Os prejuízos nos furtos registrados em Goiânia passaram de meio milhão de reais.
Prisões e foragidos
Policiais do Rio Grande do Sul e de São Paulo prenderam Vinícius quando ele saía de casa, na Zona Leste de São Paulo.
A Defensoria Pública, responsável por sua defesa, informou que só vai se manifestar no processo.
Alberto está sob custódia em um hospital na capital paulista e não quis falar sobre a investigação. A defesa dele informou, em nota, que vai se manifestar nos autos e que os fatos serão esclarecidos.
As polícias de São Paulo e de Goiás também prenderam Fubeta. Um delegado de Goiás afirmou que ele tem ligação com uma facção criminosa paulista.
A reportagem do Fantástico não localizou os advogados de Fubeta nem os de Renata Palermo, que está foragida, e dos demais suspeitos identificados nas imagens.
Alerta para condomínios
Um delegado da Polícia Civil do Rio Grande do Sul destacou que procedimentos de segurança tornam o acesso mais lento, mas são essenciais para confirmar a identidade de quem tenta entrar no condomínio.
Segundo ele, é preciso verificar não apenas se a pessoa é quem diz ser, mas também se tem autorização de algum morador.
Um delegado de Goiás ampliou o alerta: a segurança não depende apenas de fechaduras, câmeras e tecnologia. A preparação das pessoas, os procedimentos e a atenção também são fundamentais para evitar invasões e furtos em condomínios.
Fonte: Conteúdo SíndicoNet (Produzido com o Auxílio de IA)