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Administração

Senso de representatividade

Conheça a história de um condômino que aceitou o desafio de virar síndico e revitalizar um condomínio com 49 torres

Publicado em: quarta-feira, 1 de junho de 2016

“Meninas, queria pedir para vocês, se for possível, que reunissem algumas demandas, melhorias mesmo que possamos fazer aqui no condomínio. Vocês poderiam escrever as sugestões num papel e conversamos amanhã, na quadra?”.

O gentil “meninas“ foi usado para se referir a um grupo de sete idosas que conversavam felizes em bancos da área comum do condomínio. O síndico, Felipe Cabral, advogado, 35, conta que esse tipo de troca tem sido fundamental para administrar o condomínio onde mora: o conjunto residencial Alto de Pinheiros, também conhecido como condomínio 2001.

O residencial foi construído com recursos do BNH (Banco Nacional da Habitação) e é um colosso. Conta com 49 torres e 784 unidades, abrigando cerca de quatro mil pessoas.

A vontade de participar da gestão surgiu quando ele foi morar no condomínio – mudou-se há dois anos e meio- e percebeu que o condomínio poderia se beneficiar de uma gestão com um olhar diferente.

“Queria muito que as pessoas percebessem que elas fazem parte de um todo, mas que podem fazer a diferença para esse todo ser diferente”, explica Felipe.

Melhorias

Em um ano de gestão, o “todo” do condomínio 2001 ficou bem diferente. Foram instaladas mais de 250 câmeras cobrindo 100% da área do condomínio. Além disso, todos os blocos receberam cisternas – assim, a conta de água diminuiu consideravelmente.

“Descobrimos também um poço artesiano, cuja água é usada para regarmos as plantas”, conta o gestor.

Outra medida que ajudou a manter as finanças do condomínio em dia foi o redimensionamento dos funcionários.

Com isso, Felipe conseguiu diminuir o condomínio em 4,5% em dezembro do ano passado, com possibilidade de diminuição novamente esse ano. A taxa média mensal é de R$ 300.

Novos ares Mas muito mais do que fazer mais com menos financeiramente, o síndico conseguiu devolver um sentimento de comunidade ao local. 

Uma diferença fundamental para tanto é o olhar sobre as áreas comuns do condomínio. Algo um pouco diferente de se lidar, uma vez que as ruas que permeiam o residencial são públicas.

"Antes, a área externa não pertencia a ninguém. Não era cuidada, e não recebia a atenção que merecia. Agora, nossa postura é de cuidarmos bem, porque é o nosso entorno", explica.

"Reiteramos as regras de boa conduta nesses espaços, como o uso de coleiras em animais, e não fumar próximo às janelas dos vizinhos, para não atrapalhar. Respeito é um conceito-chave quando se mora em condomínio", reitera Felipe.

Estilo de gestão

Um diálogo respeitoso, segundo Felipe, é uma das marcas principais da sua gestão.

“Para lidar com latidos de cachorro que ficam o dia todo em casa sozinho, por exemplo, não mandamos apenas um aviso ou multa. Explicamos também que não é bacana deixar o animal sozinho o dia todo, e que isso não é bom para os vizinhos também. Não é apenas ‘aqui está a sua multa’ Tudo tem um motivo de ser” explica ele.

Felipe também apostou no diálogo para combater a inadimplência - que atualmente está em 12% no residencial. Por isso, abriu mão de contratar um advogado ou empresa especializada em cobrança. 

“Tem funcionado melhor conversar com a pessoa, explicar como é importante pagar em dia a taxa, mostrar as melhorias".

Outra medida ousada foi ter optado pela auto-gestão. Ou seja: preferiu não contar com os serviços de uma administradora. Para tanto, conta com três funcionários próprios do condomínio na administração.

Gestão participativa

Para conseguir conciliar sua função de síndico de um condomínio tão grande com a profissão de advogado, Felipe fica a parte da manhã no condomínio e, de tarde, fica no escritório.

Além disso, para trazer os moradores para dentro da gestão, implementou a eleição de representantes por bloco ‘para agilizar a tomada de decisões e descentralizar o poder’, além de formar diversas comissões de moradores.

Outra marca da gestão são os diversos eventos realizados pelo condomínio, como feiras de artesanato, festas juninas, etc.

“É uma ótima maneira de dar espaço para os moradores mostrarem suas habilidades e de melhorar a convivência. Aqui temos muita população de terceira idade, é uma oportunidade incrível de mostrar tudo o que elas sabem fazer”, aposta.

Para conseguir colocar tudo isso em prática, Felipe contou que utiliza muito o SíndicoNet para se manter sempre atualizado.

“Também gosto muito do canal fornecedores, para mim é importante ver as notas que os outros síndicos deram para o prestador de serviços. Os modelos do canal downloads também sempre ajudam bastante quando preciso de uma nova comunicação.”

Público e privado

Um dos principais desafios do gestor é gerir as áreas comuns do condomínio, uma vez que elas são áreas públicas. O residencial não é gradeado.

“Consegui firmar parcerias com a prefeitura, com a Polícia Militar e com a Guarda Civil Metropolitana. Se eu consigo resolver alguns problemas aqui por ter mais agilidade, também posso cobrar uma contrapartida. Agora temos rondas periódicas e a prefeitura instalou equipamentos da a terceira idade se exercitar”, argumenta Felipe.

Outra benfeitoria conquistada pelo condomínio por meio de demandas e parcerias é a reforma da quadra. 

"Nós cobramos do poder público, conversamos com vereadores. A subprefeitura liberou a verba e assim conseguimos a reforma dessa área", conta.

Próximos passos

O síndico tem pela frente três grandes desafios no último ano da sua primeira gestão.

Quer pintar as fachadas de todas as torres, fazer um site interativo para o condomínio, e melhorar as iniciativas para a terceira idade no residencial.

“Aqui eles são maioria. Não quero só respeito para eles, quero mais autonomia, felicidade, que se sintam plenos em suas casas”, aposta Felipe.

Conselho

Para quem cuida de um condomínio grande como o seu, a dica de Felipe é sempre trazer os moradores, suas demandas e olhares para as necessidades do condomínio. 

"Quando conseguimos ouvir as demandas e entender as necessidades das pessoas, aí podemos fazer uma gestão mais democrática", finaliza.

Esse é o  terceiro case publicado pelo SíndicoNet sobre "gestores da vida real". Nossa ideia é mostrar como é o dia-a-dia dos síndicos brasileiros. O primeiro a participar foi um gestor jovem, que optou por ser síndico para agregar a sua vida profissional. O segundo foi o síndico do Copan, um cartão-postal de São Paulo. Quer participar? Escreva para gente aqui!

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