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Convivência

Síndica mais longeva

Gestora do DF tem 88 anos e é adorada por todos

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019
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Aos 88 anos, síndica do Sudoeste é a mais longeva do país

Sábado próximo, Antônia Leal dos Reis completa 88 anos de vida. É hoje, em atividade, a síndica mais longeva do Brasil e do DF e tornou-se unanimidade no Sudoeste

No dia em que preparava o enxoval para o casamento, a mãe, a dona de casa espanhola Dolores Fontela Leal disse para a noiva, a segunda filha, então com 20 anos: “Você tem que colocar os aventais para cozinhar para seu marido. Mulher precisa cozinhar para o marido”. Ela olhou para a mãe e disse: “Tudo, menos avental”. No enxoval da noiva, os aventais não couberam. O pai, o serrador português Manoel Leal, longe da mulher, disse à filha que ia se casar: “Você tem que fazer o que gosta”. Foi o que Antônia Leal dos Reis precisava ouvir. Ela, desde aquele dia, só fez o que realmente quis fazer.

E por fazer só aquilo que gosta e quer, sábado próximo, 23, ela completará 88 anos. Parabéns! É mais que parabéns! É um tanto de vida que não cabe nem nela mesma. Hoje, com qualidade de vida, muita gente chega e passa brincando dos 80 anos. Mas essa mulher tem algo especial, ela é a síndica mais longeva do DF e do país. Detalhe: ainda trabalhando. A informação é da Associação Brasileira dos Síndicos e Síndicos Profissionais (Abrassp). Há 27 anos, ininterruptos, é ela quem dá as ordens e as cartas num prédio da Quadra 103 do Sudoeste. Um bloco com 117 unidades, que reúne comércio e residência.

Na terça-feira passada, na entrada do prédio, ela foi agraciada com o prêmio Master Síndico, o mais importante da entidade, que congrega mais de 25 mil síndicos de todo o país. O diploma lhe foi entregue pelo diretor da Abrassp, Paulo Roberto Melo. “Apenas 20 pessoas já receberam esse prêmio”, diz ele.

E ela virou, mesmo sendo síndica, pasmem, uma unanimidade na quadra. É adorada por todos. Não há exagero no uso da palavra. Dos porteiros, passando pelos moradores aos empresários da região de classe média alta. O porteiro e encarregado do prédio, Carlos Silva, 42 anos, o mais antigo no bloco, não lhe poupa elogios: “Ela é rigorosa. Checa tudo, vê tudo, cobra cada detalhe. Mas o que mais me impressiona na dona Antônia é a honestidade e a simplicidade. Ela virou meio mãe de todo mundo aqui”.

Além do tempo

Mas antes de ela chegar a Brasília e virar síndica, há um monte de história lá atrás. Voltemos, então, ao interior de São Paulo. Em Garça, região de Marília, houve o casamento de Antônia e Milton Maganha. Com ele, viveu por 34 anos. Vieram os três filhos. Era uma mulher cercada por quatro homens. Um dia, o marido quis se mudar de São Paulo. Comprou uma fazenda em Maringá. Ia plantar e vender. A família inteira se mudou para o Paraná. E foi ali que Antônia fez tudo: menos usar avental para cozinhar. “Até sei fazer uma coisa ou outra, mas sou péssima na cozinha. O que gosto é da parte de confeitaria”, diz.

Aprendeu a dirigir sozinha. Nos anos 1950/1960, guiava um Jipe 1954 pelas fazendas das redondezas. Levava e buscava os filhos na escola. Não só os filhos, mas as crianças das outras fazendas. Ia com a cara e a coragem, às vezes, inventando estradas que nem existiam. E, para não depender apenas do dinheiro do marido, aprendeu também a costurar. Passou a dar aula de costura para as mulheres da região. “Era uma boa modista. Por isso gosto de moda até hoje”, conta.

Ali em Maringá, a vida seguia seu rumo. Um dia, Milton viu que os negócios não estavam indo bem. E, mais uma vez, decidiu recomeçar. Voltou para São Paulo. Os filhos, já maiores, começaram a seguir também os próprios rumos. Mudaram-se para Brasília. Anos depois, em 1977, Miguel e Antônia chegaram a Brasília. Antônia contava 46 anos. Milton, 50. Vida nova na terra de JK. Em todos os sentidos. Ela, intuitiva, queria mais. “Os meus três filhos estavam criados. Eu já havia cumprido minha missão de mãe. Meu casamento estava diferente. Eu queria viver.”

A grande paixão

Antônia foi viver. E viver é, definitivamente, o que lhe dá mais prazer. “Eu amo a vida. Amo acordar e me sentir viva”, me disse ela, várias vezes, durante os nossos encontros. Poucos anos depois, divorciada, mas amiga de Miguel, o pai dos filhos, encontrou um novo amor. Antônia já havia passado dos 50. “Ele era militar da Aeronáutica, quatro anos mais novo do que eu”, conta. Foi paixão arrebatadora.

Adiodato José dos Reis foi servir na Embaixada do Brasil no Uruguai. Montevidéu seria o novo lar. Lá, Antônia teve papel de destaque. Deu vida e levou alegria ao lugar. “Eu organizei todas as festas nos dois anos em que vivemos lá. Coloquei o Brasil em destaque. Até festa junina eu fiz”, diz, mostrando as muitas fotografias de papel e os olhares apaixonados entre ela e Adiodato.

Antônia lembra as viagens para Buenos Aires. Os tangos que dançou com seu o amor da maturidade. E o espanhol que fala bem, aprendido ainda com a mãe espanhola. Os dois anos no Uruguai acabaram. Adiodato foi para a reforma e voltou para o Brasil. Resolveu morar em Natal. Queria estar perto do mar. Ali, viveram os últimos anos de amor. Ele morreu, repentinamente, de um edema pulmonar. “Foram seis anos de muita felicidade, talvez os mais intensos da minha vida”, relembra, com olhos perdidos de saudade na sala do seu apartamento.

Viúva, antes dos 60 anos, ela deixou Natal e voltou para Brasília. Aqui estavam os três filhos, os netos e o ex-marido, que morreu há pouco tempo. Sempre independente, decidiu também que teria o canto dela, sozinha. O prédio onde mora e no qual virou síndica estava acabando de construir. Ela não hesitou. Comprou ali seu apartamento. Foi a primeira moradora. E, há 27 anos, é a pessoa mais atuante do lugar onde vive e do Sudoeste, onde chegou quando o bairro era ainda um monte de barro vermelho e poucos acreditavam que se tornaria uma das regiões mais atraentes e disputadas do DF.

Uma luta por todos

E a luta dela não é apenas para o seu quadradinho ou pela quadra onde mora. Juntou-se à campanha pelo Batalhão da Polícia Militar do bairro. Conseguiu. Está atenta a tudo. Não deixou que os flanelinhas dominassem, sem critério, o espaço. E, por isso, sem imaginar, tornou-se unanimidade no espaço onde vive.

“O que mais me impressiona nela é a vitalidade e a alegria. Ela me dá conselhos. Eu aprendo todo dia com dona Antônia”, diz a decoradora Mônica Blanco, 40, que morou no prédio e, mesmo fora, sempre passa lá para uma boa conversa. E entrega, às gargalhadas: “Ela é que me leva para o bar, para a gandaia”. 

Elvi de Sousa, 33, é gerente do Café Tróia, que reúne café, restaurante e bar, lugar que Antônia sempre frequenta com as amigas, para ouvir música e tomar a sua caipiroska de kiwi, descoberta recente e predileta. A gerente virou fã: “Ela tem um jeito de lidar com as pessoas especial. Trata todo mundo bem, pode ser quem for. No dia em que não vem, a gente estranha”.

Wiliam Matos, garçom da Padaria Pães e Vinhos, outro lugar que ela frequenta diariamente, admira-se com a vivacidade da mulher de 88 anos: “Ela tem uma cabeça incrível. É um exemplo”.  A fiel diarista, Rosa Pinheiro da Silva, de 40 anos e há 11 aprendendo com as lições de vida de Antônia, emociona-se: “Ela, de patroa, virou amiga. Quando estou com problema é com ela que desabafo”.

A empresária Vilma Peixoto, 59, dona da Barbearia Peixoto, que está na quadra há 22 anos e virou subsíndica há quatro, hoje tornou-se amiga de Antônia. “Sou aprendiz dela. O que mais me chama a atenção é que ela percebeu que o mundo evoluiu e ela teve flexibilidade para evoluir com o mundo”. E rasga elogios: “Gosto da modernidade dela, da forma como se veste, das roupas coloridas, do astral. Ela não fala de dores, de tristeza”. Antônia é moderna sem rede social. Ela prefere a vida real: “Tenho um celular, mas quase não atendo. O telefone fixo de casa resolve. Eu gosto de ver as pessoas nos olhos, lidar com elas”.

Amor de família

Se Antônia é unanimidade no lugar onde vive, não seria diferente entre a família — os três filhos, seis netos e quatro bisnetos. O filho caçula, Carlos Eduardo Maganha, 60, corretor da Bolsa Nacional de Mercadoria e morador do Park Way, fala com voz embargada ao descrever a mãe: “A minha maior admiração é ela ser justa. Sempre teve uma noção de justiça muito forte. E admiro a independência e a coragem como enfrentou a vida, nunca se dobrou por nada. O tempo não foi inimigo”. A cada domingo, ela vai para casa de um filho. É o almoço sagrado. “Mas ela sempre volta para a casa dela, não aceita dormir na casa de nenhum de nós. Ela é muito independente”, entrega Carlos Eduardo.

A nora Adelaide Maganha, 59, corretora de grãos e mercadoria, reflete: “Ela luta pelo bem-estar de todo mundo. É uma mãe pra mim”.  A neta, a médica Ana Carolina Zuliane Maganha, 38, é pura admiração: “Ela não se tornou a vozinha do crochê. Venceu dificuldades, os desafios e virou uma mulher forte, que acredita na vida. Eu aprendo com ela”.

A neta conta uma passagem recente e fantástica: “Uma noite, passava das 9h, estava eu com meus dois filhos e marido no carro e fui à casa dela para levar um remédio. Aí, ao chegar à portaria, o porteiro logo me disse que ela estava no café da quadra com as amigas, toda animada e ouvindo música. Ela me olhou e disse: ‘Carol, minha querida, senta aqui, toma uma taça de vinho’. Ela é assim. Minha avó é pura vida”.

Foram três dias conversando com várias pessoas para traçar um perfil de Antônia Leal dos Reis. Foram três dias indo à casa de Antônia para ver a vida dela, sentir, ver fotos em papel e escutar os discos de Nelson Gonçalves na sua vitrola. Foram três dias para entrar no mundo de Antônia. É muita pretensão querer definir uma mulher de 88 anos em três dias.

Antônia é o que de mais perto a gente conhece ou tem ideia de ser humano. Cada vez em extinção. Um ser humano que empolga, apaixona e nos convida para viver a mesma história. Por alguns momentos, era como se o repórter estivesse de carona, no Jipe 1954, rasgando as estradas que ela dirigia no Paraná. Antônia é extraordinária. É o que se pode dizer sobre ela. E isso é definitivamente tudo.

Fonte: www.correiobraziliense.com.br

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