Vigias presos
ES: Vigias são acusados de torturar e matar morador de rua
Nove funcionários de uma empresa de segurança privada foram denunciados pelo Ministério Público do Espírito Santo por sequestrar, torturar e matar um homem em situação de rua na região da Grande Vitória. A denúncia foi oferecida em 21 de julho, com base em investigação que identificou ao menos outras sete vítimas submetidas a agressões pelo mesmo grupo.
Os acusados trabalhavam para a Tattica Tecnologia e Segurança Eireli e atuavam em condomínios das regiões da Praia do Suá e Enseada do Suá. Segundo a investigação, o grupo visava pessoas em situação de rua que tivessem cometido pequenos furtos ou que fossem consideradas "inconvenientes" pelos clientes da empresa. Elas eram sequestradas, espancadas e, em alguns casos, torturadas.
A vítima fatal foi Marcos Vinícius Lopes Rodrigues, que vivia embaixo da Terceira Ponte. Sua mãe procurou a polícia em abril de 2026 após não encontrá-lo mais, e o caso foi assumido pela Delegacia de Pessoas Desaparecidas. O corpo só foi localizado em 20 de abril, após investigadores reconstituírem a dinâmica do crime. Um exame de DNA confirmou que sangue encontrado no banco traseiro de uma caminhonete da empresa pertencia à vítima.
Cronologia do crime
Marcos Vinícius foi alvo do grupo em duas ocasiões. A primeira ocorreu em 8 de março de 2026, no bairro Prainha, em Vila Velha, quando foi apontado como autor de um furto em condomínio. Ele foi sequestrado, espancado e teve dentes arrancados com um alicate, em sessão de tortura filmada pelos próprios vigias.
Na madrugada de 16 de março, Marcos Vinícius teria invadido e furtado a sede da própria empresa Tattica. O grupo interpretou o episódio como uma afronta. Ralson Amâncio Chagas, apontado como líder, reorganizou a programação daquela noite, convocou funcionários que estavam de folga e determinou que a vítima fosse levada à região do Contorno de Jacaraípe.
Câmeras de monitoramento registraram a abordagem às 0h40 de 17 de março, no bairro Praia do Suá. Três ocupantes desceram de uma caminhonete e colocaram Marcos Vinícius à força no veículo. O grupo seguiu em comboio pela Avenida Nossa Senhora da Penha, pela BR-101 e pelo Contorno de Jacaraípe até uma área de eucaliptos na Serra, onde ele foi agredido e abandonado.
Na manhã seguinte, Ralson ordenou que Saimon Sales Cesar fosse ao local "dar um confere". Saimon retornou à tarde e constatou a morte. Em áudio enviado a Saimon, Ralson comentou a situação com o dono da empresa: "Passei aqui para o Rafael também a situação. A gente falou, rapaz, esse bicho não pode morrer, não."
Na madrugada de 18 de março, Saimon, Thiago Gonçalves, Gabriel dos Santos Amaral e Gabriel Fittipaldi voltaram ao local com a caminhonete da empresa e ferramentas para enterrar o corpo.
Violência combinada por aplicativo
As ações eram planejadas e registradas por meio de um grupo de WhatsApp chamado "RONDAS". Os integrantes filmavam as agressões, enviavam os vídeos ao grupo e incentivavam a conduta violenta entre si. Em um dos registros obtidos pela polícia, Ralson declarou aos colegas: "a gente vai amassar e vai até finalizar".
Além de Marcos Vinícius, a investigação documentou agressões contra ao menos sete outras pessoas entre 2024 e março de 2026. Em junho de 2024, um homem foi espancado por três vigias na frente de um condomínio e declarou em depoimento que recebeu "chutes, socos e diversos golpes com cassetetes em diversas partes do corpo". Laudos médicos confirmaram as lesões. Em setembro de 2025, uma mulher em situação de rua foi chutada no rosto por integrantes da equipe. Em março de 2026, outro homem foi sequestrado e torturado após ser apontado como autor de furtos em uma lavanderia; ele conseguiu fugir e foi socorrido pelo Samu com hematomas, vômitos e lesão na cabeça. A polícia identificou outras vítimas pelas mídias do grupo, mas não as localizou para prestar depoimento.
Empresa e responsabilidades
O delegado-geral do Espírito Santo, Jordano Bruno, classificou o caso como "barbárie". "É algo nos dias de hoje, em plena região metropolitana da Grande Vitória, quase inimaginável. Algo tão perverso e desumano, uma barbárie que estava sendo cometida com pessoas em situação de rua, de extrema vulnerabilidade", disse. Jordano também afirmou que a investigação deixou claro o padrão de atuação do grupo: "Esses indivíduos, que realizavam essas rondas, contratados por condomínios, estavam utilizando desta função para poder fazer com que essas pessoas [em situação de rua] desaparecessem dos locais em que eles circulavam. Ao longo da investigação ficou bem caracterizado que eles basicamente sequestraram essas pessoas e espancaram elas. Em um dos casos, esse espancamento foi uma forma de execução."
O delegado-geral acrescentou que empresas de segurança não têm legitimidade para agir dessa forma: "Nenhuma empresa de segurança está legitimada a fazer extração, retirada, expulsão de pessoas em situação de rua, independente da situação. Tem os órgãos, têm os assistentes sociais, tem a polícia, tem o estado para prestar serviço."
O dono da empresa, Rafael Saturnino Reis, não foi denunciado, mas a investigação aponta que ele tinha conhecimento das agressões. Rafael integrava o grupo "Ronda Operacional" e elogiava as ações. Após uma operação realizada em agosto de 2025, escreveu no grupo: "Conversei com o síndico mais cedo e foram só elogios sobre essa abordagem!!!". Síndicos de condomínios atendidos pela Tattica confirmaram à investigação que a empresa oferecia a "retirada" de pessoas em situação de rua como diferencial de serviço.
Os denunciados
Oito dos nove acusados respondem por homicídio qualificado, ocultação de cadáver e organização criminosa. O nono, Gabriel Fittipaldi, atuava em videomonitoramento e não integrava a equipe de rondas, mas teria participado do sequestro e do homicídio. Um dos suspeitos permanece foragido. Os denunciados são:
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Ralson Amâncio Chagas, 42 anos (preso); apontado como coordenador das rondas e líder da organização criminosa.
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Celso Henrique de Azevedo, 35 anos (preso).
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Rafael de Souza Silva, 33 anos (preso).
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Saimon Sales Cesar, 30 anos (preso).
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Paulo Henrique Esteves Silva, 30 anos (preso).
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Gabriel dos Santos Amaral, 29 anos (preso).
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Lucas Miguel Oliveira dos Santos, vulgo "MEC", 28 anos (foragido).
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Thiago Gonçalves, 24 anos (preso).
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Gabriel Fittipaldi, vulgo "Pimentel", 22 anos (preso).
A reportagem tentou contato com as defesas de todos os denunciados e com a empresa Tattica Tecnologia e Segurança por e-mail, Instagram e telefone, sem retorno até a publicação. A Secretaria Municipal de Assistência Social de Vitória (Semas) também foi procurada para informar sobre o acompanhamento da população em situação de rua na região e sobre eventuais novas medidas de proteção; o espaço segue aberto para manifestação.
Fonte: Conteúdo SíndicoNet (Produzido com o Auxílio de IA)