O que a tragédia da Voepass ensina aos síndicos
Veja as lições que o acidente da Voepass ensina aos síndicos sobre normalização de desvios, cultura de segurança, comunicação e gestão de riscos
A normalização do desvio é um dos grandes males da gestão. Um erro repetido diversas vezes não pode ser entendido como certo apenas porque se tornou habitual.
O CENIPA (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) concluiu a investigação referente ao acidente da Voepass ocorrido em agosto de 2024, em Vinhedo. As conclusões trazem importantes lições para a gestão de condomínios.
Inicialmente, deixo aqui minha solidariedade aos familiares das 62 vítimas fatais. O relatório do CENIPA, divulgado em 23 de julho de 2026, não tem como objetivo apontar culpados, mas identificar fatores contribuintes e recomendar medidas para prevenir que acidentes semelhantes voltem a acontecer.
Tenho o hábito de buscar em outros mercados respostas para questões que ainda não encontro no segmento em que atuo.
A aviação tem sido uma grande fonte de inspiração, pois operar uma aeronave, muitas vezes, guarda semelhanças com o exercício da sindicatura: exige planejamento, procedimentos, comunicação eficiente, treinamento, atenção aos sinais de alerta e capacidade de tomar decisões diante de situações de risco.
Quando os desvios se tornam rotina
Foram identificados mais de 19 fatores contribuintes para o acidente. Entre eles, alguns merecem especial atenção de síndicos e gestores:
- Treinamento insuficiente: os treinamentos oferecidos não se mostraram compatíveis com o nível mínimo de proficiência desejado, e não houve resposta adequada aos alertas emitidos.
- Distrações e perda de percepção de risco: problemas pessoais e conversas informais não relacionadas à condução técnica podem ter reduzido a percepção dos riscos. Esse estado de distração favoreceu o surgimento da chamada cegueira e surdez por desatenção (inattentional blindness e inattentional deafness).
- Falhas na coordenação: o gerenciamento inadequado das tarefas, problemas de comunicação e a inobservância de normas operacionais caracterizaram deficiências na coordenação da cabine.
- Ausência de registros: a falta de informações no Livro de Bordo impediu que os setores técnicos e operacionais adotassem medidas para reduzir os riscos identificados.
- Cultura de informalidade: predominava na empresa uma cultura de informalidade nas interações, na qual alertas de risco eram negligenciados justamente por serem recorrentes. Isso fragilizou a cultura de segurança.
Acidente da Voepass ensina aos síndicos o perigo de aceitar o que sempre foi feito
Essas conclusões ajudam a revelar aspectos da cultura da empresa operadora da aeronave. Um dos principais aprendizados é justamente o risco de normalizar os desvios.
Quando uma irregularidade acontece uma vez, pode ser tratada como uma exceção. Quando acontece repetidamente e nada é feito, passa a ser vista como normal. E aquilo que deveria gerar um alerta deixa de chamar a atenção.
É assim que pequenas falhas podem se acumular até produzir consequências graves.
No condomínio, isso pode acontecer de diversas formas: uma manutenção adiada repetidamente, uma porta corta-fogo que permanece aberta, um equipamento que apresenta problemas recorrentes, uma infiltração que nunca é definitivamente solucionada ou uma norma de segurança que deixa de ser cumprida porque “sempre foi assim”.
Síndicos precisam estar atentos aos sinais
O corpo fala, os equipamentos falam e os alertas são emitidos. Cabe aos síndicos e gestores dar a devida atenção a cada detalhe.
Um ruído diferente no elevador, uma infiltração recorrente, uma falha no sistema de combate a incêndio, uma reclamação que se repete ou um procedimento que deixou de ser cumprido podem ser sinais de que algo precisa ser investigado.
O exercício da sindicatura exige cada vez mais preparo e profissionalização. É uma atividade que envolve pessoas, patrimônio, segurança, recursos financeiros e decisões. Um erro pode custar muito caro.
Por isso, não basta administrar o que está funcionando. É preciso identificar aquilo que está saindo do padrão e agir antes que o problema se torne maior.
Uma nova cultura de segurança nos condomínios
A aviação transformou acidentes em oportunidades de aprendizado e aprimoramento de procedimentos.
No ambiente condominial, também precisamos desenvolver uma cultura na qual erros, falhas e sinais de risco sejam tratados como oportunidades de correção — e não como algo a ser escondido ou simplesmente tolerado.
Que esse triste episódio sirva, portanto, como um alerta para a construção de uma nova cultura nos condomínios, na qual predominem o respeito, a segurança, a prevenção e a valorização das pessoas e do patrimônio.
Porque o fato de algo sempre ter sido feito de determinada maneira não significa que essa seja a maneira certa de fazer.
(*) Leonardo Diniz Mascarenhas é síndico, empreendedor, palestrante e professor. Diretor Nextin Brasil. Síndico 5 Estrelas, embaixador Porter e conselheiro CAM. Magic Leader Orlando (1ª turma). Contato: @leo_diniz_mascarenhas | leo@nextin.com.br | (31) 9.9406-5000