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Manutenção

Condomínio novo

Conheça os problemas de quem compra unidade nova e com defeitos

Publicado em: quinta-feira, 22 de maio de 2014

Moradores de apartamentos novos convivem com irregularidades na obra

Construtoras entregam imóveis recheados de problemas em Goiânia, Rio e Porto Alegre. Perito verifica diferentes riscos e falhas nas construções.
 
Um problema que afeta cada vez um número maior de brasileiros: pessoas que quando acham que conseguiram, enfim, realizar o sonho da casa própria, vivem um pesadelo. Não era bem assim que estava no anúncio.
 
No apartamento do Thiago, em um vídeo gravado pelo próprio morador, é possível ver água caindo dentro da sala e vários baldes pelo chão. “Você tem até piscina dentro de casa. Cascata, coisas que você talvez só teria em apartamentos de luxo”, critica ele no vídeo.
 
O vídeo foi feito em dezembro do ano passado, dez meses depois da entrega do prédio, no subúrbio do Rio de Janeiro.
 
Durante a festa de aniversário do vizinho, Renan, no salão de festas, cai uma cascata de água do teto. Mas a situação não é coisa só do prédio deles, não.
 
Em São Paulo, quando uma moradora tenta lavar roupa, ao abrir a torneira do tanque, a água começa a sair do ralo.
 
Na região metropolitana de Goiânia, tem esgoto saindo pela pia da cozinha. E a Flávia não pode nem dar descarga porque a água vaza.
 
Todos os apartamentos são novinhos. O de Goiânia não tem nem três meses.
 
“A minha vida virou um caos”, conta Thiago.
 
Aumento nas reclamações contra construtoras e incorporadoras
 
Um site de reclamações na internet mostra que nos três primeiros meses deste ano o número de relatos sobre problemas de infraestrutura em prédios recém-entregues subiu 36 % em relação ao mesmo período do ano passado. Foram 4631 reclamações, de janeiro a março de 2014.
 
“Infiltração nas unidades, rachaduras, problemas com portas ou janelas que não se fecham adequadamente, desnível nos pisos”, conta o presidente do Comitê de Habitação da OAB de São Paulo Marcelo Tapai.
 
O Procon, a Fundação de Defesa do Consumidor, de São Paulo, também detectou um aumento nas reclamações em geral contra construtoras e incorporadoras.
Isso inclui não só problemas com obras mal feitas, mas também atrasos e cobranças indevidas.
 
“De 2012 pra 2013 nós registramos um aumento de 71% nas reclamações registrados pelos consumidores contra as construtoras”, explica a diretora de atendimento do Procon-SP, Selma do Amaral.
 
Apenas 8 % dessas reclamações foram resolvidas, segundo o Procon.
 
“Você tem um crescimento do mercado imobiliário e você verifica que esse crescimento ele tá acompanhado de uma série de problemas”, diz Selma.
 
Primeiro apartamento em Goiânia acaba em problemas
 
Há dez meses, o advogado Adriano Lima comprou seu primeiro apartamento, de 48 metros quadrados. O resultado?
 
“Problemas de infiltração, problemas com esgoto, com gás, com energia elétrica”, conta Adriano Lima, advogado.
 
Nas áreas comuns e nos apartamentos, ele mostra rachaduras, buracos, vazamentos e infiltrações. “O esgoto voltou pela tubulação da pia e da máquina de lavar”, afirma Adriano.
 
Até em lugar onde água é um perigo. “Está havendo infiltração ao lado das caixas de energia. A parede está úmida. Está muito úmida”, conta o advogado.
 
Mulher descobre logo após a mudança que não pode usar banheiro
 
A vizinha de Adriano, Flávia Tavares, descobriu logo que mudou que não poderia usar o banheiro. “Quando eu dou descarga, a água do vaso sai toda para dentro do banheiro”, conta a técnica de nutrição.
 
Reparo feito em prédio no Rio de Janeiro não agrada proprietário
 
No Rio de Janeiro, no bairro de Honório Gurgel, o prédio do Thiago e do Renan têm problemas parecidos.
 
Fantástico: Quem que teve a festa alagada?
 
“Fui eu. O telhado começou a ceder, o isopor com as bebidas começou a boiar pelo salão. A festa acabou”, conta o chef de cozinha Renan Menezes.
 
Depois da chuva, a construtora fez um reparo. Mas a esposa do Renan, a Flaviana, não gostou do resultado.
 
“Eles só colocaram as telhas no lugar e refizeram o PVC, sendo que a gente tinha solicitado que colocasse laje e eles falaram que em caso ocorrer novamente, estando o PVC e o telhado, era mais fácil de eles consertarem e não machucaria ninguém se caísse de novo. Quer dizer, eles partem do princípio que pode voltar a acontecer”, diz a cirurgia dentista Flaviana Chaves.
 
A Flaviana levou a gente para conhecer outros problemas. Dessa vez, no apartamento do casal, de 50 metros quadrados. “Não poder lavar a cozinha, não poder lavar o banheiro com água, desinfetante, sabão essas coisas que as pessoas comuns lavam, porque senão vaza tudo na casa do vizinho”, explica ela.
 
Proprietário desiste do apartamento
 
O Thiago, aquele do começo desta reportagem, desistiu do apartamento.
 
“Depois da chuva, eu vi que eles não iriam vir resolver, em janeiro eu já fechei a porta e saí”, conta o marítimo Tiago Maia Madureira.
 
Em nota, a construtora MRV disse que começou a reformar o apartamento do Thiago no dia 2 de janeiro e que as obras estão em andamento.
Construtora aponta responsabilidade do condomínio em vazamento
 
Na última sexta-feira (16), a MRV procurou o Fantástico para falar sobre o vazamento no teto do salão de festas. A empresa afirma que aconteceu por falta de manutenção das calhas, uma responsabilidade do condomínio.
 
O síndico diz que a construtora nunca informou sobre a manutenção das calhas. A construtora dos prédios do Rio e de Goiânia é a mesma.
 
Ela afirma que 75 % dos problemas dos dois condomínios já foram consertados. Os demais estão sendo atendidos pela assistência técnica.
 
Prédio em SP tem vazamento próximo de equipamentos eletrônicos
 
Em um outro prédio, de outra construtora, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, também não pode chover. “Nós temos equipamentos eletrônicos ligados e vazamento de agua. Aqui também na parede, no chão, todo esse lugar fica inundado”, diz a administradora de empresa Fernanda Baraldi.
 
Perito verifica riscos e falhas na construção do prédio
 
O Fantástico trouxe o Carlos Eugênio, que é um perito especializado em condomínios, para verificar quais os riscos que as falhas na construção dessa obra oferecem para os moradores.
 
Fantástico: Esse teto, o que é, parece uma estalactite, é isso?
 
Carlos Eugênio: É uma falha do sistema de impermeabilização. É altamente agressiva à armadura do concreto.
 
Fantástico: É normal isso acontecer em um prédio que não tem nem um ano?
 
Carlos Eugênio: Não, não é normal. Serviço mal feito e tem que ser refeito.
 
Perigo grave nas escadas das saídas de emergência
 
Nosso perito também encontrou outro problema grave - e perigoso. Nas escadas das saídas de emergência.
 
Carlos Eugênio: Você vê que esse primeiro degrau, ele tem 23 centímetros de desnível, quando você vem pra esse degrau aqui, ele tem 15 centímetros. Dá uma
diferença de oito centímetros. É muita coisa.
 
A variação máxima permitida por lei entre degraus de um mesmo lance de escadas é de cinco milímetros, bem menos que os oito centímetros constatados.
 
Construtora do prédio de São Paulo diz que vai realizar reparos
 
A construtora do prédio de São Paulo, a Gafisa, afirma que ele foi entregue em perfeitas condições ser habitado, e diz que definiu um cronograma para atender a todos os pedidos que considerar procedentes e de sua responsabilidade. A empresa afirma também que vai realizar os reparos necessários nas escadas de emergência.
 
O que verificar antes de aceitar o imóvel
 
Fantástico: O que o morador deve verificar antes de assinar qualquer aceite do seu apartamento?
 
Carlos Eugênio: Principalmente o funcionamento de janelas, portas. Tem que levar um baldinho. Aí ele põe água no baldinho, vai no banheiro, joga água bem devagarzinho no box, no sentido contrário do ralo, bem devagarzinho no piso, a água tem que caminhar em sentido ao ralo. Só recebe, assina o recebimento após todas as anomalias construtivas serem corrigidas”, indica o perito especializado em condomínios.
 
O Guilherme, que mora num apartamento de 49 metros quadrados, no bairro Glória, em Porto Alegre, fez isso, mas os problemas apareceram depois. Então, ele acionou a construtora, a PDG.
 
“A gente teve problema com o gás. Depois que a gente conseguiu resolver esse problema, que foi também a custo, abrindo chamado, recorrendo, a gente teve um problema com água, com a vazão e com a pressão da água, que também demorou por uma semana. Então a gente ficou praticamente, quase duas semanas sem poder tomar um banho de água quente”, conta o analista de sistemas Guilherme Fortes.
 
Mas ainda há coisa para ser consertada.
 
"O interfone que não funciona. A gente tem ainda problema de vazamento no cuba da pia, da cozinha. Tem problema no exaustor do banheiro", afirma Guilherme.
Gafisa, PDG e MRV estão entre as mais reclamadas no Procon de SP
 
Em nota, a PDG diz que problemas encontrados em suas unidades serão analisados.
 
A PDG, a Gafisa e a MRV estão entre as cinco construtoras que mais receberam reclamações no Procon de São Paulo em 2013.
 
Para o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção, os problemas de obras mal acabadas são pontuais.
 
“Não é um problema generalizado, ao contrário, eu acho até que é um problema bastante... de percentual bastante pequeno. Hoje há uma preocupação muito forte do construtor sério e formal, com a qualidade dos seus produtos. Até porque há uma demanda com relação a isso da sociedade muito forte, cada vez maior. São problemas que eventualmente ocorrem, mas eu diria que hoje o consumidor tá muito protegido em relação a isso”, afirma Paulo Simão, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção.
 
“Essa construtora tem o prazo de 30 dias para sanar esses defeitos. Do contrário, abre-se aí o direito do consumidor de inclusive ter o valor pago por esse imóvel devolvido e corrigido”, conta a diretora do Procon.
 
“As pessoas não podem aceitar o apartamento e área comum mais ou menos. Ninguém compra um imóvel mais ou menos e não paga mais ou menos por ele. Então tem que exigir que a entrega seja adequada”, alerta o advogado.

Fonte: http://g1.globo.com/

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