A inclusão que transforma: um caso real no condomínio
A chegada de uma família com uma criança neurodivergente mostrou que a maior ferramenta do síndico não é o regulamento, e sim a mediação com sensibilidade
Quando uma família com uma criança neurodivergente chegou ao prédio, as primeiras reclamações não falavam de barulho: falavam de desconhecimento. Em vez de recorrer ao regulamento, a síndica ouviu a família, treinou a equipe, informou os moradores e combinou pequenos ajustes de rotina.
Em poucos meses, a convivência mudou — e o caso mostra qual é, de fato, a principal ferramenta de quem administra um condomínio.
- O conflito real: não era o comportamento da criança, era a falta de informação da comunidade.
- O primeiro passo: chamar a família para uma conversa que perguntasse "o que vocês precisam?", sem exigir justificativas.
- O plano combinado: horários mais tranquilos de adaptação no parquinho e treinamento da portaria e da manutenção para momentos de sobrecarga sensorial.
- A comunicação: material educativo a todos os moradores, com consentimento da família e identidade preservada, mais roda de conversa com adultos e tarde de brincadeiras cooperativas com as crianças.
- O resultado: cantinho sensorial nas festas do salão, crianças chamando o menino para brincar e moradores perguntando como ajudar.
- A lição de gestão: informar e educar evita conflito melhor do que multar.
Confira a íntegra no artigo da SíndicoNet Creator Amanda Accioli abaixo. Boa leitura!
A Inclusão que Transforma: Um Caso Real da Vida Condominial
Entre tantos casos que vivi na minha trajetória como advogada condominial e, depois, como síndica profissional, um dos que mais me marcou foi o processo de acolhimento de uma família que chegou ao condomínio com uma criança neurodivergente.
Eu já havia enfrentado conflitos complexos, disputas internas, obras intermináveis, problemas jurídicos delicados e jogos de vaidades entre moradores, mas nada me ensinou tanto sobre convivência, sensibilidade e humanidade quanto essa experiência.
A família chegou em uma manhã de sábado, trazendo consigo a esperança de um recomeço em um ambiente mais tranquilo. No cadastro prévio, apenas uma observação discreta chamava atenção: "criança com necessidades especiais".
Não havia especificações sobre diagnóstico, apenas o pedido carinhoso da mãe para que o condomínio tivesse paciência, acolhimento e orientação caso necessário. Esse pequeno gesto já dizia muito sobre o que aquela família provavelmente havia vivido em outros lugares — julgamentos, impaciência e falta de compreensão.
Quando o desconhecimento sobre neurodivergência vira reclamação
Nos primeiros dias, percebi que o menino, a quem chamarei de Lucas, demonstrava comportamentos característicos: movimentos repetitivos com as mãos, sensibilidade a barulhos mais intensos, dificuldade em manter contato visual e uma forma muito própria de explorar o ambiente.
No parquinho, gostava de se isolar em cantos específicos, observar pequenos detalhes, alinhar brinquedos e evitar interações diretas. Era doce, curioso, mas seu modo de se relacionar com o mundo causava estranhamento em algumas pessoas.
Bastaram duas semanas para que as primeiras mensagens chegassem à minha caixa de e-mails. Algumas mães relatavam que ele gritava quando alguém tirava seu brinquedo; outras diziam que as crianças estavam com medo porque "ele não era como os outros". Comentários que, mais do que reclamações, revelavam desconhecimento.
A conversa que mudou o tom
Percebendo que o problema principal não era o comportamento da criança, mas a falta de informação da comunidade, decidi chamar os pais para uma conversa acolhedora. Eles chegaram tensos, como se esperassem que eu fosse questioná-los ou impor restrições.
Quando expliquei que meu objetivo era entender como poderíamos ajudar Lucas a se adaptar ao condomínio e como orientar os demais moradores, os dois se emocionaram. A mãe me contou que nunca tinham sido recebidos com esse cuidado.
Em outros lugares, sempre esperavam que eles justificassem, explicassem ou até pedissem desculpas pelo comportamento do filho. Ali, pela primeira vez, alguém perguntava: "O que vocês precisam?"
O plano de inclusão combinado com a família
A partir dali, passamos a construir juntos pequenas estratégias que fariam toda a diferença. Combinei com a família horários mais tranquilos para que Lucas pudesse ocupar o parquinho nos primeiros dias de adaptação, sem muitos estímulos ao mesmo tempo.
Pedi que eles compartilhassem informações importantes para treinarmos a equipe de portaria e manutenção: como agir em momentos de sobrecarga sensorial, quais comportamentos eram esperados durante crises e qual era a melhor forma de acalmá-lo caso necessário.
Peça por peça, fui juntando informações para desenvolver um plano silencioso, mas cuidadoso, de inclusão.
Com o consentimento da família — e preservando completamente a identidade do Lucas — preparei uma comunicação educativa para todos os moradores. Expliquei o que é neurodivergência, como algumas crianças percebem e reagem ao mundo de maneiras diferentes, e como atitudes simples podem tornar o ambiente mais acolhedor para todos. A linguagem era leve, clara e humana.
Também organizei, com apoio de moradores especialistas da área da saúde e educação, uma pequena roda de conversa destinada aos adultos, para que pudessem entender, tirar dúvidas e desenvolver empatia.
Para as crianças do condomínio, promovemos uma tarde especial com brincadeiras cooperativas, explicando que cada um tem seu tempo, seus limites e suas maneiras de brincar.
O que mudou na convivência do condomínio
O efeito foi transformador. Aos poucos, Lucas começou a se sentir mais confortável nos espaços comuns. Duas crianças passaram a dividir brinquedos com ele e a chamá-lo para brincar.
A portaria aprendeu a identificar quando ele precisava de um ambiente mais silencioso. Alguns moradores que, antes, reclamavam, passaram a perguntar aos pais como poderiam ajudar.
Em festas no salão, preparamos um cantinho sensorial para que ele pudesse se recolher quando o barulho fosse excessivo, algo simples, mas extremamente importante para que ele pudesse participar sem sofrimento.
Inclusão em condomínio não é favor, é responsabilidade
Esse caso me ensinou algo profundo sobre gestão condominial: inclusão não é um favor, é uma responsabilidade coletiva.
Compreendi que a maior ferramenta do síndico não é o regulamento, nem a procuração jurídica ou o poder disciplinar, mas a capacidade de mediar relações humanas com sensibilidade.
Aprendi que, quando informamos e educamos, evitamos conflitos. Quando ouvimos com verdadeira intenção de compreender, encontramos soluções que beneficiam toda a comunidade. E quando tratamos as diferenças com naturalidade, o condomínio deixa de ser apenas um conjunto de apartamentos e passa a ser um espaço de convivência real.
Meses depois, durante um evento do condomínio, Lucas se aproximou de mim e me entregou um desenho. Não falou nada. Apenas colocou o papel em minhas mãos. Era um rabisco colorido com três figuras: ele, sua família e, ao lado, uma mulher com crachá — claramente eu.
A mãe sorriu e disse: "Ele desenhou porque se sente seguro aqui. Obrigada por nos cuidar." Aquele pequeno desenho, guardado até hoje, representa para mim o que a gestão condominial pode alcançar quando feita com humanidade: transformar não apenas ambientes, mas também vidas.
(*) Amanda Accioli é Síndica Profissional e Advogada Condominialista, Diretora Nacional da Sindicatura da ANACON (Associação Nacional da Advocacia Condominial), Membro da Comissão Especial de Direito Condominial da OAB/SP, Síndica associada à AABIC e ao Secovi-SP. Palestrante e articulista. Instagram: @acciolicondominial | e-mail: amandaaccioli.adv@gmail.com