O seu navegador é muito antigo :-(

Dica: Troque para um navegador moderno para ter uma melhor experiência no SíndicoNet 😉

Saiba mais ×
Convivência

Conflitos na vizinhança

RJ: Levantamento corrobora com narrativa da série "Os outros"

sexta-feira, 14 de julho de 2023
WhatsApp
LinkedIn
RJ: Levantamento corrobora com narrativa da série "Os outros"

'Os outros' da vida real: Rio registrou 70 homicídios e 14 mil agressões entre vizinhos em cinco anos

Os dados ISP foram obtidos via Lei de Acesso à Informação. Em comum, as histórias convergem no medo constante e no trauma de terem seus lares como palco de violência

Uma aposentada de 52 anos e sua filha, de 25, vivem como exiladas. Elas não conseguem voltar para a casa em que moraram por duas décadas. No dia 13 de março, por volta de 1h30, as duas foram agredidas por um casal de vizinhos em Santíssimo, na Zona Oeste do Rio. O ataque com socos e chutes ficou marcado na pele e na memória da jovem, que esconde no rosto a cicatriz daquela madrugada com um boné na cabeça.

A mais de 50 quilômetros de distância, o fisioterapeuta Thiago Destefani Cossetti, de 39 anos, passou por terror semelhante. A briga por uma vaga na garagem do condomínio no Leblon, na Zona Sul, onde mora, o deixou com uma lesão no ombro que o afastou de suas atividades profissionais. Nos dois episódios, as agressões foram flagradas por câmeras de segurança.

Em comum, as histórias convergem no medo constante e no trauma de terem seus lares como palco de violência. Entre janeiro de 2018 e dezembro de 2022, houve no Estado do Rio 35.244 ocorrências de ameaça, lesão corporal dolosa, homicídio, tentativa de homicídio e feminicídio envolvendo vizinhos. Isso equivale a um caso a cada hora e meia, em média. Os dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) foram obtidos via Lei de Acesso à Informação.

Série mostrou drama

O drama dessas vítimas, que temem represálias, mostra que a escalada no desentendimento entre vizinhos — tema da série “Os Outros”, da GloboPlay, que teve o último capítulo da primeira temporada exibido na última sexta (7) — está longe de ser apenas ficção. Na trama, que se passa em um condomínio na Barra da Tijuca, a briga de dois adolescentes acende a faísca de violência entre as famílias, mostrando a intolerância e a agressividade que podem ocorrer intramuros.

No caso da aposentada, o embate com o vizinho começou no ano passado, assim que ela instalou câmeras de segurança com o intuito de evitar roubos e furtos nos arredores da sua residência. O vizinho alegou que o equipamento filmava parte de seu quintal. Segundo o relato dela à polícia, ele quebrou uma das câmeras e apontou uma pistola para seu rosto.

Na madrugada do dia 13 de março, mãe e filha voltavam da delegacia após mais um registro de ameaça contra os vizinhos, quando foram agredidas pelo casal. Com uma criança no colo, a esposa do vizinho empurra a aposentada, que chega a cair no chão em certo momento. Enquanto isso, o homem dá socos no rosto da jovem, que depois consegue fugir para pedir ajuda a outros vizinhos.

— Tenho plena convicção de que, se não fossem os vizinhos, minha filha estaria morta — desabafa a aposentada, que faz tratamento de otite nos dois ouvidos devido às pancadas que levou na cabeça.

Procurado pela reportagem, o casal negou o episódio da arma. A esposa disse que ela e o marido “saíram de si” na noite da agressão, após uma provocação feita pelas mulheres sobre a filha dela, de 2 anos. Ela também afirmou que a agressão foi um erro que não se justifica.

Escalada de violência

No caso de Thiago, a agressão foi em 17 de janeiro. Após uma reunião de condomínio decidir em favor do fisioterapeuta na questão sobre a vaga da garagem, o vizinho o abordou. A discussão avançou para violência física, Thiago levou um soco e a briga escalonou.

No celular, Thiago mostra uma foto com o resultado dos ataques: marcas vermelhas no rosto e três mordidas nas costas. Além de uma lesão ligamentar no ombro esquerdo que o afastou do trabalho, conta ele, que vive na atualidade com o auxílio do INSS.

— Hoje, a gente vive em um clima constante de insegurança e medo de esbarrar com ele dentro do condomínio. Sinto que meu direito de ir e vir foi cerceado, que perdi minha liberdade — desabafa Thiago, que faz acompanhamento psiquiátrico e psicológico.

Em sua defesa, o vizinho disse que o ocorrido foi uma “briga entre pessoas com igual porte” e não um “espancamento”. Ele acrescentou que está sofrendo perseguição por parte do Thiago e que vai entrar com um processo na Justiça contra ele.

A psicanalista Renata Bento observa que a intolerância é a questão chave das brigas entre vizinhos:

— Às vezes, as pessoas estão tão cheias dos próprios problemas que uma situação pequena se mistura a outras gerando a intolerância com o próximo. Porém, conviver pressupõe tolerar as diferenças e ter empatia. É isso que vai nos diferenciar como humanos.

Polarização

Para Marcelo Borges, diretor de condomínio e locação da Associação Brasileira das Administradoras de Imóveis (Abadi), a intermediação entre os vizinhos está cada vez mais difícil. A razão, segundo ele, é a polarização ideológica que afetou o mundo e deixou as discussões demasiadamente acaloradas:

— As pessoas estão conciliando cada dia menos. Ninguém quer renunciar ou enxergar o lado do outro.

No ano passado, chegaram ao Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro 560 casos relativos ao direito de vizinhança. Em 2023, foram 226 casos novos até o fim de maio. As razões são variadas e vão de um vaso de planta colocado em área comum a vagas de garagem. De acordo com o advogado Ismar Coelho Júnior, os casos mais corriqueiros estão relacionados a perturbação ao sossego, injúria, calúnia, difamação, ameaça, uso arbitrário das próprias razões e lesão corporal.

Segundo a delegada Daniela Campos Rodriguez Terra, titular da 14ª DP (Leblon), as brigas entre vizinhos representam a maior demanda nas delegacias da Zona Sul do Rio. Ela diz que alguns confrontos duram anos e, em casos extremos, terminam em tragédia. De 2018 a 2022, 70 homicídios dolosos no estado tiveram vizinhos como vítimas. Dezessete foram na cidade do Rio, segundo o ISP. Ocorreram ainda 14.574 lesões corporais — uma média de 7,9, ou praticamente oito, agressões por dia.

‘Nossa vida mudou’

A psicóloga clínica e hospitalar Glauce Corrêa conta que uma das sequelas das brigas entre vizinhos é o transtorno de estresse pós-traumático.

— A violência que ocorre no espaço que consideramos de confiança tem um impacto psicológico muito grande nas vítimas. O medo gerado pode levar ao isolamento e desencadear um processo depressivo — explica ela.

As violências sofridas pela aposentada e sua filha, por exemplo, transbordam o dia das agressões.

— Nossa vida mudou completamente. Meu rosto ficou desfigurado e, por isso, tenho vergonha de sair por conta da cicatriz. Mesmo longe, temos medo de ir ao portão, andar na rua, ver carro semelhante ao deles — revela a estudante, que também faz tratamento psicológico e psiquiátrico.

Agora, mãe e filha tentam recomeçar a vida em outro lugar e aguardam o andamento dos processos: dois tramitam no 17º Juizado Especial Criminal do Fórum Regional de Bangu, e um na 4ª Vara Cível, do Fórum Regional de Bangu.

O vizinho de Thiago foi indiciado pela Polícia Civil por lesão corporal, dano e ameaça. O inquérito foi encaminhado para o Ministério Público do Rio.

Fonte: https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2023/07/09/os-outros-da-vida-real-rio-registrou-70-homicidios-e-14-mil-agressoes-entre-vizinhos-em-cinco-anos.ghtml

Web Stories

Ver mais

Newsletter

Captcha obrigatório

Confirmar e-mail

Uma mensagem de confirmação foi enviada para seu e-mail cadastrado. Acesse sua conta de email e clique no botão para validar o acesso.

Esta é uma medida para termos certeza que ninguém está utilizando seu endereço de email sem o seu conhecimento.
Ao informar os seus dados, você confirma que está de acordo com a Política de Privacidade e com os Termos de Uso do Síndico.
Aviso importante:

O portal SíndicoNet é apenas uma plataforma de aproximação, e não oferece quaisquer garantias, implícitas ou explicitas, sobre os produtos e serviços disponibilizados nesta seção. Assim, o portal SíndicoNet não se responsabiliza, a qualquer título, pelos serviços ou produtos comercializados pelos fornecedores listados nesta seção, sendo sua contratação por conta e risco do usuário, que fica ciente que todos os eventuais danos ou prejuízos, de qualquer natureza, que possam decorrer da contratação/aquisição dos serviços e produtos listados nesta seção são de responsabilidade exclusiva do fornecedor contratado, sem qualquer solidariedade ou subsidiariedade do Portal SíndicoNet.
Para saber mais, acesse nosso Regulamento de Uso.

Não encontrei o que procurava Quero anunciar no SíndicoNet