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Contra incêndios

Bombeiros entra no debate de carros elétricos em condomínios

Exigências do Corpo de Bombeiros de SP em minuta de parecer técnico para carros elétricos em condomínios podem inviabilizar a tecnologia. Especialistas pedem calma

23/04/24 07:20 - Atualizado há 74 dias
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Pessoa segurando um extintor para apagar incêndio em carro elétrico
Parecer dos Bombeiros de São Paulo, aberto à consulta pública até 06/08/2024, faz exigências de segurança contra incêndios em carros elétricos
iStock

A crescente adoção de veículos elétricos no Brasil tem impulsionado uma série de discussões e medidas em relação à segurança contra incêndios em espaços destinados à recarga e estacionamento de carros elétricos em condomínios. Afinal, a frota já passou dos 256,5 mil veículos (ABVE).

Isso aconteceu muito em função de um parecer técnico do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo, que estipula diversas exigências e prazos, os quais deixaram muitos síndicos de cabelo em pé. 

Há preocupações em relação à viabilidade técnica, mas, principalmente, econômica, das medidas propostas, que poderiam inviabilizar a instalação de estações de recarga nos condomínios. 

O SíndicoNet conversou com diversas partes envolvidas no assunto, trazendo as motivações, exigências, como tem sido feito atualmente, consequências, alternativas e orientações para condomínios que já possuem o sistema ou pretendem instalar carregadores de carros elétricos. Confira! 

Motivos da portaria do Corpo de Bombeiros sobre carros elétricos em condomínios

O Parecer Técnico nº CCB-0001/800/24 do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo aborda a necessidade de medidas de segurança contra incêndio em espaços destinados à recarga de veículos elétricos (VE), o que engloba os condomínios. 

Fruto do trabalho de uma Comissão Especial, o documento destaca o aumento significativo das vendas de veículos elétricos no Brasil, conforme último levantamento divulgado pela Associação Brasileira de Veículos Elétricos (ABVE) em seu site.

Março de 2024, inclusive, foi o segundo melhor mês da série histórica da ABVE, com 13.613 emplacamentos. As vendas nesse período só foram superadas pelo recorde de dezembro de 2023 (16.279). De 2012 a 2024, o total geral de veículos eletrificados vendidos no País é de 256.521, de acordo com a entidade. 

Já existe uma lei na cidade de São Paulo, decretada em 2020, que prevê a obrigatoriedade da instalação de carregadores de veículos elétricos e híbridos em edifícios residenciais e comerciais novos. No Distrito Federal segue em tramitação o PL 2.169/21, propondo a mesma regra.

Então, com o crescimento da frota desses veículos, o Corpo de Bombeiros entende que haverá mais trabalho no atendimento a combate a incêndios, especialmente devido aos riscos ampliados relacionados às baterias de íons de lítio - um componente comum em celulares, notebooks e câmeras.

Entre outros fatores como exposição a temperaturas extremas, vibrações e impactos durante o percurso, as baterias de carros elétricos são consideravelmente maiores, assim como a capacidade de armazenamento, se comparadas às encontradas em dispositivos eletrônicos portáteis.

Isso significa que a bateria de íons de lítio acumula uma quantidade superior de energia, o que pode resultar em incêndios mais intensos e difíceis de controlar.

Sendo assim, os incêndios em VE apresentam desafios específicos, como a dificuldade de extinção e provocando labaredas altas e intensas, as quais demandam grandes volumes de água, além da alta dissipação de gases tóxicos e calor, o que aumenta o potencial de reignição do incêndio. Ou seja, o fogo volta a se propagar dias depois mesmo que tenha sido aparentemente extinto.

Em entrevista à Folha de São Paulo, em dezembro de 2023, o porta-voz do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo, capitão André Elias, afirmou que, embora os casos de incêndio em veículos elétricos sejam raros, causa um dano maior devido à dificuldade em controlar as chamas.

De acordo com o NTSB (sigla em inglês para Conselho Nacional de Segurança nos Transportes dos EUA), ocorrem, em média, 25,1 incêndios a cada 100 mil carros elétricos em circulação. Esse número sobe para 1.529 a cada 100 mil no caso dos carros com motor a combustão. 

No entanto, o que o capitão defende é que já existe um vasto conhecimento sobre o que fazer em ocorrências ligadas a veículos a combustão, enquanto os carros elétricos são uma tecnologia relativamente nova, muito recente no que diz respeito a incêndios.

Citando "estudos globais", o texto do parecer dos bombeiros indica que a detecção precoce e o combate nos primeiros indícios de fogo são essenciais para uma eficaz extinção dos incêndios relacionados a esse tipo de bateria presente nos veículos elétricos. 

Diante disso, a garagem dos edifícios com sistema de carregamento de carros elétricos também precisa estar preparada para minimizar os riscos de danos estruturais e preservar a vida das pessoas

Vale ressaltar que a lei em São Paulo, que obriga novas edificações a disponibilizarem sistemas para carregamento de veículos, faz menção vaga às normas, limitando-se, assim, no artigo 1º, inciso I:

"I - modo de recarga do veículo elétrico conforme normas técnicas brasileiras" (grifo SíndicoNet)

Enquanto isso, a proposta dos bombeiros em São Paulo menciona a norma internacional sobre "Instalação de Sistemas estacionários de armazenamento de energia (NFPA 855)", desenvolvida pela National Fire Protection Association (NFPA) - uma organização dos Estados Unidos voltada à promoção da segurança contra incêndios.

Tal norma trata especificamente da instalação de sistemas que armazenam energia elétrica em instalações fixas, como baterias de íons de lítio, por exemplo, sugerindo a "segregação adequada dos veículos".

O Corpo de Bombeiros do estado de São Paulo também realça a importância das edificações garantirem ambientes ventilados e rotas de fuga eficientes. 

Por fim, a corporação reforça que o tema ainda está em fase de debate e carece de regulamentação específica, sendo um documento pioneiro em abordar o assunto, tanto nacional quanto internacionalmente.

Exigências dos bombeiros para carregamento de carros elétricos em condomínios

Listamos abaixo os principais critérios de segurança contra incêndio que constam na minuta do parecer técnico do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo para edificações que detêm ou pretendem instalar carregadores de carros elétricos coletivos ou individuais. Confira:

  • Fornecer um ponto de desconexão manual para cada estação de carregamento, a uma distância entre 20 e 40 metros da estação de carregamento e em um local diferente, mas dentro da área do prédio/condomínio, desde que haja vigilância permanente (portaria, guarita, etc.);
  • Disjuntor para cortar a energia entre os módulos de carregamento e a rede elétrica;
  • Sinalização de emergência no espaço de carregamento e próximo ao ponto de desconexão, indicando a posição de cada ponto de carregamento e o disjuntor correspondente;
  • 2 extintores ABC, com distância máxima de caminhada de 15 metros.

Para garagens localizadas em áreas externas e que possuam estações de carregamento (ou seja, não dispositivos individuais), além dos requisitos anteriores, deverão possuir medidas de segurança adicionais, sugerindo duas alternativas:

  1. Distância mínima de segurança de 5 metros em relação às demais vagas do estacionamento, locais com carga de incêndio ou áreas de risco.
  2. Portas corta-fogo, com dimensões de 1,60m de altura por 5m de comprimento. 

Medidas de segurança mais rígidas para garagens subterrâneas

No item 2.14 do documento dos bombeiros, recomenda-se a instalação de carregadores de carros elétricos, preferencialmente, em áreas descobertas e externas à edificação.

Caso as estações de recarga estejam situadas no subsolo ou edifícios garagem, os prédios deverão atender a medidas de segurança mais rígidas. São propostas duas opções:

  1. Sistema de detecção de incêndio (por calor, não fumaça, pois as emissões dos escapamentos dos carros com motor a combustão podem ativar desnecessariamente o equipamento) e chuveiros automáticos em todo o pavimento onde houver vagas que possuam carregamento elétrico, conforme Instrução Técnica nº 23 do Corpo de Bombeiros de SP
  2. Cada vaga com base de carregamento elétrico deve possuir um sistema de detecção de incêndio (pontual), além de ser isolada por porta corta-fogo de 5m de comprimento até o teto do pavimento e dispor de, no mínimo, dois chuveiros automáticos. 

No quesito "chuveiros automáticos", é preciso pensar na reserva técnica de água para abastecer esses pontos em caso de incêndios. Segundo relato à Folha, o capitão André Elias explicou que, atualmente, um condomínio de oito andares e quatro apartamentos de 70 m² por pavimento, por exemplo, bastam 8 mil litros. Caso a norma seja oficializada, passariam a ser necessários 40 mil litros. 

Devido à fumaça decorrente dos gases tóxicos gerados na queima, será necessário, ainda, um sistema de ventilação do subsolo, combinando requisitos de proteção térmica e extração mecânica, cujas instruções seguem previstas na Instrução Técnica nº 15 - Controle de fumaça do Corpo de Bombeiros do estado de São Paulo.

De qualquer forma, a medida anterior poderá ser dispensada caso o pavimento da edificação seja dotado de ventilação natural com abertura mínima de 50% em todas as fachadas

Além da IT nº 23, o texto da minuta do parecer técnico cita, ainda, que as instalações devem respeitar os parâmetros internacionais da NFPA 15 (Sistemas fixos de pulverização para proteção contra incêndio) ou NFPA 750 (Sistemas de proteção contra incêndio por névoa de água). 

Outro ponto relevante do documento é a proibição de sistemas de carregamento de VE em garagens que possuam as famosas "vagas presas", por conta do layout que dificulta o acesso aos veículos.  

Prazos para adequação

A minuta do parecer técnico do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo estabelece o prazo de 1 ano para que as edificações que contemplem sistema de carregamento de carros elétricos realizem as adequações exigidas. 

AVCB

Como estamos falando de combate a incêndio, vale lembrar que todas essas medidas serão consideradas para fins de emissão do documento dos bombeiros, o AVCB (Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros).

Dessa maneira, o AVCB dos edifícios também deverá ser atualizado para se adaptar às determinações dos bombeiros. Se não houver alterações às medidas, o Projeto de Segurança poderá ser regularizado por meio de Formulário de Assistência Técnica (FAT).

Para as edificações novas que ainda não possuem projeto de segurança contra incêndio aprovado (AVCB), o ato normativo passa a vigorar da data de publicação do documento. 

Responsabilidade por acidentes

Em caso de sinistros registrados nas estações de carregamento, ocorridos dentro do prazo de adequação (1 ano), as responsabilidades serão inteiramente do técnico que executou o serviço e da empresa instaladora, seguindo os critérios estabelecidos pela norma NBR 17019 (Instalações Elétricas - Alimentação de veículos elétricos).

E, de maneira subsidiária, proprietário e responsável pelo uso (condomínio) também serão responsabilizados.

Como o abastecimento de carros elétricos é feito nos condomínios atualmente

Atualmente, há duas maneiras de abastecer veículos elétricos no condomínio: estação de recarga individual na vaga do condômino (utilizados em instalações fixas, como paredes e totens) ou estação de recarga coletiva

Esta matéria não vai entrar no mérito de como carregar o VE ou quem vai pagar pelo uso da energia, e sim, focar nos pontos referentes à segurança contra incêndios durante o carregamento de carros elétricos em prédios. 

Nesse sentido, os cuidados que se aplicam hoje em dia, antes de proceder com a instalação das estações de recarga na garagem do condomínio, são basicamente estes:

  • Respeitar os padrões técnicos especificados pelo fabricante do veículo;
  • Verificar as condições elétricas;
  • Realizar uma análise de disponibilidade de potência;
  • Elaborar um projeto elétrico com engenheiro especializado, com recolhimento de ART (Anotação de Responsabilidade Técnica);
  • Fazer as adequações civil e elétrica necessárias;
  • Contar com uma empresa especializada em eletrificação para executar o projeto, com recolhimento de ART.

Durante a fase de projeto, eletricistas e engenheiros projetam as adequações requisitadas para que as estações de recarga tenham quadros próprios de distribuição de energia, disjuntores, dispositivos de segurança contra surtos, transformadores, etc. 

"Tudo isso deve estar embasado conforme disposto nas NBR 5410 (Instalações elétricas de baixa tensão), NBR 17.019 (já citada), além da ABNT NBR IEC 61851 (Sistema de recarga condutiva para veículos elétricos) e da normativa dos produtos/equipamentos fixados pelo INMETRO", assinala Evandro Mendes, engenheiro eletricista e CEO da Eletricus, empresa especializada em infraestrutura para recarga para veículos elétricos. 

No caso do síndico morador e membro do SíndicoNet Clube Fernando Buss, no ano passado implementou no seu condomínio de 40 apartamentos um ponto de recarga individual para veículos elétricos. As medidas de segurança foram centralizadas na parte elétrica e não teve grandes dificuldades. 

"Identificamos a corrente de energia elétrica e constatamos que tínhamos carga disponível o suficiente para ser utilizada com segurança. Como a garagem já possuía tomadas individualizadas, somente foi substituída a fixação pela bitola especificada pelo fabricante do veículo", ele especifica.

Fernando acrescenta que houve, ainda, a preocupação para que a instalação não ficasse exposta a condições externas, como vazamentos - tão comuns em lajes de garagem. 

Média de custo para instalação de estações de recarga individual e coletiva

Os custos de instalação de uma estação de recarga individual de carro elétrico e uma estação de recarga coletiva podem variar consideravelmente.

Essa estimativa depende de vários fatores, incluindo a marca e o modelo da estação de recarga, a capacidade de carga (potência), a infraestrutura elétrica existente no local, os custos de mão de obra e os requisitos específicos do projeto.

Em média, uma estação de recarga individual para carro elétrico pode custar entre R$ 2 mil a R$ 6 mil. Já o sistema coletivo terá um custo mais elevado para suportar múltiplos pontos de carregamento e uma infraestrutura elétrica mais robusta, variando entre R$ 10 mil a R$ 30 mil.

Opinião de especialistas quanto às exigências do Corpo de Bombeiros sobre carros elétricos

Além de Fernando Buss e Evandro Mendes (também diretor de infraestrutura da ABVE), o SíndicoNet conversou com diversos especialistas.

O advogado especialista em mercado imobiliário Jaques Bushatsky, o engenheiro eletricista Jéferson Oliveira da Laplace Consultoria e Perícias Elétricas, o professor Luís Fernando Monteiro do Depto. de Engenharia Eletrônica e Telecomunicações da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e o diretor de condomínio e locação da ABADI (Associação Brasileira das Administradoras de Imóveis) Marcelo Borges, também refletiram sobre as exigências do Corpo de Bombeiros e suas consequências

(Tentamos contato com o Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo, mas até a finalização desta reportagem, não foi dada a entrevista. O SíndicoNet deixa claro que o espaço segue aberto para sua manifestação).

Destacamos, a seguir, os principais pontos levantados pelas fontes. Confira! 

Importância do parecer por questões de segurança, sem inviabilizar a tecnologia.

Marcelo Borges, da ABADI, acredita que a ABNT já editou Normas Regulamentadoras quanto à instalação de estações de recargas de carros elétricos e seguir tais orientações já seria um passo adequado para erradicar os riscos. 

"Portanto, me parecem um pouco exageradas as exigências contidas no relatório do Corpo de Bombeiros de SP, cujo atendimento realmente poderá inviabilizar o uso desse tipo de veículo. Nós entendemos que o progresso gerado por essa matriz energética não deva ser freado", conclui.

O advogado Jaques Bushatsky prefere se alinhar entre os cautelosos. "Primeiro, o Corpo de Bombeiros tem brilhante atuação há 144 anos. É o maior Corpo de Bombeiros da América Latina! Obviamente, acumulou experiência e técnica suficientes para cuidar do tema", defende.

No ponto de vista de Evandro Mendes, da ABVE, a chamada pública dos bombeiros de fato é extremamente importante e necessária, justamente porque foi redigida por uma instituição muito respeitada, renomada e que detém a plena confiança da população.

Luís Fernando Monteiro, da Uerj, concorda que a partir do momento em que se instala pontos de recarga de carros elétricos em prédios, deve existir um sistema mais criterioso e rebuscado de combate à incêndio.

"E em se tratando de bateria de íons de lítio, que dá, sim, mais trabalho para apagar o fogo, esse risco precisa ser minimizado. Por isso, achamos positivo a corporação tocar no assunto de segurança das instalações para carregadores para veículos elétricos", complementa Evandro.

Ainda assim, ele entende que o assunto precisa ser melhor debatido, com calma e aprofundamento técnico. A sugestão é dar maior embasamento às medidas de segurança, porém, de maneira coerente, sem inviabilizar uma tecnologia que está em expansão no mundo inteiro, sendo fundamental para a mobilidade pública e meio ambiente.

Nesse ponto, faz-se necessária a ressalva de que o documento do Corpo de Bombeiros não é definitivo, pois está em consulta pública por 30 dias*, isto é, a sociedade pode opinar, sugerir e melhorar o estudo minucioso já feito pela corporação. Como a publicação do parecer aconteceu dia 05 de abril, o prazo para manifestação se encerra dia 05 de maio.

Evandro relembra que esta não é uma prática tão comum do Corpo de Bombeiros, o que mostra que a instituição está atenta e aberta a ouvir os interessados e, com isso, ter uma maior contribuição para sua tomada de decisão. 

É a hora das empresas, montadoras, pessoas físicas, entidades do setor, engenheiros, seguradoras, construtores e especialistas se manifestarem e promoverem testes, construindo de maneira colaborativa um documento que equilibre segurança, viabilidade técnica e econômica.

Até porque, na opinião do diretor da ABVE, de modo geral, todos os pontos citados pelo Corpo de Bombeiros são importantes, mas possuem um grau de dificuldade na execução não só estrutural, mas sobretudo, econômica. 

"Enfim, há a necessidade de um aprofundamento técnico por parte, não só do Corpo de Bombeiros, mas de todos os interessados na pauta. Precisamos trazer contrapontos, fazer um debate amplo sobre materiais, referências, históricos e premissas do que foi levantado até então para fazer os devidos ajustes e assim seguir o melhor caminho", enfatiza Evandro. 

Por exemplo, os chuveiros em cima do carro minimizam o fogo, mas não extinguem a fonte de energia que está queimando.

Eles funcionamento perfeitamente quando têm acesso direto à bateria, mas em VE, por serem extremamente bem vedadas, lá no assoalho, não atingem o foco do incêndio em si. Isso sem contar que esse trabalho não é eficaz com extintores do tipo ABC, e sim com água pura. 

A parede corta-fogo é outra questão impeditiva, mas, ainda que não tenha sido mencionado no texto, o armazenamento de volume de água para abastecer os chuveiros também causa um impacto gigante, obrigando o prédio a aumentar em até três vezes essa reserva para combater um incêndio.

Diante de tudo isso, o que Evandro tem proposto à corporação é estender o prazo para consulta pública para 90 dias*, tempo razoável para que se posso debater o assunto com mais afinco. 

Por mais que as exigências técnicas presentes na proposta do Corpo de Bombeiro já tenham assustado as pessoas por si só, o prazo de 1 ano, considerado curto para realizar as adequações, provocou ainda mais calafrios.

"Imagine um prédio com 40 carregadores elétricos. Como você vai fazer essa adequação em 1 ano apenas? É muito importante a preocupação dos Bombeiros, lógico que a vida e a segurança estão em primeiro lugar, mas não adianta projetar algo na teoria que, na prática, impede os condomínios de executá-lo. É preciso ponderar risco, probabilidade e impacto em termos de custo", argumenta Evandro. 

O engenheiro Luís Fernando estima que se as adequações encarecem a instalação de estações de carregamento de VE em 20% já poderia ser algo que barrasse esse tipo de tecnologia nos condomínios.

"Quanto mais restrições, menor o uso, o que majora o custo agregado do sistema, pois eleva o valor do quilowatt-hora. Então a vantagem de se ter um veículo elétrico começa a declinar", ele expõe. 

Evandro faz uma comparação de custo entre prédios residenciais e comerciais ou outros estabelecimentos, como estacionamentos. "Empreendimentos residenciais têm um sistema de combate a incêndio menos rígido, mas também possuem menor valor, com apartamentos na faixa de R$ 500 mil. Qual a viabilidade financeira de executar isso?", questiona.

À Folha, o capitão André Elias do Corpo de Bombeiros confirmou que as novas normas podem encarecer futuras edificações, mas isso só poderá ser calculado após a divulgação do parecer técnico em definitivo.

Ausência de dados do Corpo de Bombeiros contradiz a segurança de veículos elétricos

Outra polêmica levantada com o parecer técnico do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo é a falta ou inconsistência de dados para justificar as medidas propostas.

Na visão de Evandro Mendes, da AVBE, os carros elétricos são seguros, pelo menos, se compararmos com a incidência de incêndios dos veículos movidos a combustão. Ele sustenta isso com base numa pesquisa que fez entre 2019 a 2022 nos Estados Unidos. 

“Não há histórico no Brasil de incêndios devido a baterias e BMS durante a recarga. Observando o mercado dos EUA naquele período, onde ocorreram apenas 3 a 5 incêndios, de um total de quase 6 milhões de veículos elétricos, ressalto que a incidência é praticamente irrelevante, contrastando com a média anual de 213 mil incêndios em veículos a combustão”, ele analisa.

Quem sabe voltar o olhar para os veículos elétricos em si, desenvolvendo um sistema de refrigeração interna da bateria que possibilite a circulação de água por todo o carro, também seja uma alternativa. Está aí uma tarefa essencial para as montadoras.  

Na entrevista à Folha de São Paulo, o porta-voz do Corpo de Bombeiros relata que "estatísticas globais" demonstram que 13% dos veículos elétricos que pegaram fogo sofreram reignição das baterias em um intervalo de até 30 dias após a ocorrência.

Evandro rebate dizendo que em nenhum outro país do mundo, muitos deles já avançados quanto ao uso de veículos elétricos, foram determinadas regras tão rígidas de combate a incêndio. 

Cuidados com as instalações elétricas são igualmente relevantes

  • Local e horário de recarga das baterias;
  • Nível da bateria no momento da conexão à rede;
  • Tendência de crescimento da demanda associada à decisão de compra de veículos elétricos.

"Se cada morador optar por recarregar a bateria do seu carro elétrico no horário de chegada convencional do trabalho, normalmente entre 18h e 19h, noite a dentro, será que o disjuntor geral do prédio e a fiação elétrica irão suportar a demanda, causando incêndios ou desligamentos indesejados? É um risco não ter controle sobre isso também", ratifica o professor da Uerj.

E agora, quais as recomendações aos condomínios?

De toda maneira, a movimentação do Corpo de Bombeiros já impactou o mercado. "A minha instrução, primeiramente, é aguardar se o prazo para consulta pública* vai ser estendido e a partir desse momento, começarmos a executar os novos pontos de recarga ou adequá-los. Enquanto isso, temos muitos condomínios com a instalação pausada", finaliza Evandro.

Até que a discussão sobre a instalação de carregadores de carros elétricos em condomínios se consolide frente às exigências do Corpo de Bombeiros, você pode se aprofundar ainda mais no assunto lendo outras matérias do SíndicoNet como esta sobre abastecimento de carros elétricos em condomínios.

(*) O Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo decidiu prorrogar o prazo da consulta pública referente ao parecer de carregadores de veículos elétricos em edificações. A corporação estabeleceu mais 90 dias de debate, a contar do dia 06/05/2024 (data em que esta matéria foi atualizada). 

Fontes consultadas: Jaques Bushatsky (advogado); Jéferson Oliveira (engenheiro eletricista); Luís Fernando Monteiro (professor do Depto. de Engenharia Eletrônica e Telecomunicações da Uerj - Universidade Estadual do Rio de Janeiro); Marcelo Borges (diretor de condomínio e locação da Abadi - Associação Brasileira das Administradoras de Imóveis); Fernando Buss (síndico morador) e Evandro Mendes (diretor de infraestrutura da ABVE - Associação Brasileira de Veículos Elétricos).

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