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Administração

Edifício histórico

Condomínio no Recife apresenta síndico dedicado e problemas de gestão

Publicado em: sexta-feira, 26 de julho de 2013

 o síndico

Wilton Vieira chega ao quinto mandato consecutivo à frente de um dos endereços mais emblemáticos do Recife, o Edifício Holiday
 
Pontas de cigarros e latas de cerveja cobrem o piso de granito do hall, resquícios da noite anterior. De cara enfezada, Wilton Vieira recoloca as lixeiras no lugar e chama o zelador para limpar o local, alheio à discussão entre duas mulheres, que distrai um punhado de moradores. O enredo não impressiona mais o homem de 79 anos que ocupa o cargo de síndico do Edifício Holiday, em Boa Viagem, Zona Sul do Recife. No quinto mandato consecutivo (dois anos cada), Vieira, como é conhecido, conquistou admiradores e desafetos entre os  1.800 moradores e 17 andares do prédio que tem como seu.
 
Morador do Holiday há 30 anos, o aposentado passou a ocupar o escritório administrativo em 2008. Ganhou o respeito dos moradores depois que os três elevadores do edifício foram interditados pelo Ministério Público (MPPE), em 2005. Na ocasião, Vieira se ofereceu para resolver o imbróglio e deixar os equipamentos aptos para funcionar. Neste mesmo ano, foi eleito síndico.
 
A rotina de trabalho começa cedo, às 6h. Na sala da administração, no térreo do prédio, fiação à mostra, mofo e infiltrações contrastam com retratos do Holiday suntuoso da época da inauguração, há 65 anos. Atrás de um birô de madeira, Vieira faz e recebe ligações, escuta reclamações dos moradores. Diabético, hipertenso e acima do peso (110 kg x 1,65 m), é repreendido pela filha, que critica o cotidiano estressante do pai. “Ele vive para o Holiday”, diz Marta Vieira, 50 anos, que reveza as tarefas burocráticas do condomínio com Vieira e também não desgruda do prédio.
 
Um dos poucos síndicos a morar no edifício no exercício da função, ele se mudou para lá com a esposa, Maria Elizia (que faleceu em 1998), e a filha, depois que um problema de saúde limitou o orçamento familiar. Na época, fornecia serviços na área de construção. “Era o único lugar que dava para pagar na época. O Holiday sempre teve fama ruim, mas é um dos melhores lugares para se viver”.
 
O síndico transmite calma e uma certa indiferença com relação à rotina de contravenções do prédio. Já perdeu a conta de quantas vezes foi acordado de madrugada para resolver confusões entre os inquilinos. As mais comuns: briga de casal, som alto, uso de drogas. A receita: não se envolver diretamente nos conflitos, para não criar inimigos. “Quando é briga de casal, entro para conversar, mas não tomo partido”. No caso de queixas sobre barulho, tenta ser compreensivo. “O prédio não tem área de lazer. As pessoas não têm onde fazer festa. Têm de usar os corredores”. Tráfico ou uso de substâncias ilícitas é tema que prefere não discutir: “A polícia sabe o que acontece aqui”.
 
A postura flexível pode funcionar em alguns casos, mas também gera críticas. “Ele faz vista grossa para as coisas erradas que acontecem aqui. Não há segurança à noite, a entrada do prédio vira uma zona, e ele diz que não pode fazer nada”, reclama a massagista Maria da Glória Ferreira, 60, moradora do 17º andar. Com um tom de voz cada vez mais alto, ela aponta problemas como falta de limpeza e de normas para o bom funcionamento do local. “Ele não ouve nossas reclamações. A desculpa é que muita gente não paga o condomínio, mas o que ele faz com o dinheiro de quem paga?”.
 
Vieira admite que há dificuldades, mas insiste que não falta interesse em resolvê-las. Segundo ele, o problema é mesmo a alta inadimplência. Cerca de 50% dos moradores não pagam a taxa de condomínio: R$ 70 (quitinete), R$ 80 (um quarto) e R$ 100 (dois quartos). Algo em torno de 30 ações de cobrança tramitam em juizados especiais cíveis da capital. Outras 30 foram concluídas com ganho de causa para o condomínio. “A gente ganha, mas as pessoas continuam sem pagar. Fica na mesma”.
 
 
Vieira no seu posto: só sai do prédio para ir à casa da namorada ou resolver problemas na Justiça. Para os desafetos, um recado. “Ninguém me derruba”
 
 
O aposentado Airton Oliveira, 55, do 14º andar, sai em defesa do síndico: “Ele faz milagre aqui”. Morador do Holiday há mais de 10 anos, Airton afirma que a maior parte dos problemas do edifício está relacionada à falta de educação dos moradores. “As pessoas jogam lixo da janela. Não adianta mandar limpar que jogam de novo”. Para o auxiliar administrativo e porteiro Carlos Barbosa, 55, a sujeira é realmente o grande desafio do condomínio. “Nós fazemos campanha, mas não resolve. O cheiro é insuportável”, diz Carlinhos, como é conhecido. Ele mora no prédio há 15 anos e é autor dos cartazes pregados no escritório administrativo e no quadro de avisos, para refrescar a memória dos moradores sobre a data do pagamento, alertar sobre manutenções no elevador e no poço ou tão somente desejar boas festas. Também gerencia a página do Holiday no Facebook, onde costuma compartilhar sentenças do tipo “Aqui, só Jesus na causa”. Apenas uma coisa o incomoda mais do que o lixo: as mudanças de humor do patrão. “Quando ele desce estressado eu fico é na minha. Não adiante discutir. Já é um senhor de idade”.
 
Após assumir o posto de síndico do Holiday, Vieira diz que uma das primeiras medidas foi tentar recuperar a imagem do prédio. “Quando cheguei aqui, tinha apartamento sendo vendido por R$ 4 mil. Hoje, chegam a R$ 35 mil, destaca, sem mencionar na conta a valorização do metro quadrado no Recife, que cresceu 75,9 % nos últimos três anos, segundo pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe/Zap Ampliado).
 
Vieira narra que, quando foi eleito síndico, os sete últimos andares do edifício estavam desocupados, pois ninguém confiava que os elevadores chegariam até lá. Ele vendeu um apartamento que pertencia ao condomínio e custeou a compra de três elevadores do extinto Hotel Boa Viagem. Outra medida emergencial foi a recuperação do poço e da fachada do prédio. Nas suas contas, 17 corredores e 120 varandas foram restaurados. Também na sua gestão, afirma, o prédio passou a contar com uma atenção especial da Rádio Patrulha da Polícia Militar, de quem o síndico “beija a boca todo dia”, em suas próprias palavras. Segundo Vieira, os agentes passam diariamente no local e atendem a todos os seus chamados.
 
São feitos como esses, destaca Vieira, que vêm garantindo sua reeleição. Não que a disputa seja acirrada: na última eleição, não apareceu ninguém para disputar o cargo, e o síndico se autorreelegeu. “Tinha um monte de gente reclamando, dizendo que iria concorrer, mas, na hora, não apareceu ninguém”, diz Marta. “Falar é fácil. Quero ver fazer o que ele fez”.
 
Um dos adversários mais ferrenhos de Vieira é o vendedor Fernando Santos, 31, morador do 3º andar. “Existe lavagem de dinheiro e corrupção nesta gestão”, afirma, sem, no entanto, apresentar provas. “Não existe conselho fiscal para a prestação de contas. Ele faz o que quer e não dá satisfação a ninguém”. Com o objetivo de exigir mais transparência e frear a autonomia do síndico, há dois anos Fernando tentou organizar uma associação de moradores do Holiday. Precisava de 100 assinaturas para consolidar a entidade, mas afirma que sofreu ameaça de morte no meio do processo. Pai de três filhos, tirou o time de campo e desistiu da iniciativa. Indagado sobre o autor da ameaça, optou pelo silêncio: “Só quem mora aqui é que sabe o que é um corredor desses à noite”.
 
Sem se abalar com a acusação, Vieira declara que qualquer condômino pode consultar o livro-caixa do edifício, à disposição na administração. Segundo ele, a despesa mensal gira em torno de R$ 15 mil, destinados à folha de pagamento, conta de energia, limpeza e manutenção do poço e dos elevadores. Ele rebate as acusações afirmando que os que se queixam de sua gestão são inquilinos inadimplentes. “Os que mais reclamam são os que nunca pagam condomínio e ainda querem exigir”.
 
Vieira também é acusado de falsificar documentos e comercializar apartamentos alheios. A corretora de planos de saúde Luzineide Siqueira, 51, do 2º andar, recorreu à Justiça como vítima de um desses negócios. Com mais quatro moradores, ela apresentou uma denúncia ao Ministério Público de Pernambuco (MPPE), em 2009, acusando o síndico de vender imóveis sem autorização dos proprietários. Luzineide alugava o apartamento em que mora a uma mulher que, por sua vez, teria ganhado o imóvel do proprietário original (já falecido). Quando a suposta dona foi morar no exterior, Luzineide perdeu o contato com ela, parou de pagar o aluguel e decidiu tentar a posse do apartamento por usucapião (direito que prevê a posse de um bem em decorrência do uso deste por determinado tempo). Segundo ela, Vieira teria cobrado R$ 400 para ajudá-la a regularizar a situação e, no fim das contas, apresentado um documento falso.
 
A história é contada no processo 226996-5, movido pelo MPPE contra Vieira, acusado de prática de estelionato “de forma continuada e afrontosa por invadir apartamentos de terceiros e os alienar como se proprietário fosse, passando a usufruir dos lucros”. A ação penal envolve os apartamentos 203 (de Luzineide), 723, 1202, 1214 e 1215. O síndico foi condenado a quatro anos em regime fechado, mas recorreu. O processo corre em 2º instância na 3ª Vara Criminal do TJPE, tendo como relator o desembargador Nivaldo Mulatinho.
 
O aposentado Agnaldo Cardoso, 80, afirma que também passou por maus bocados e chegou a perder o apartamento depois que este, supostamente, foi comercializado por Vieira em 2009. Cardoso afirma que teve de se ausentar do prédio por um mês e deixou um colega fazendo reforma no apartamento. Quando retornou, conta que o rapaz havia se instalado no imóvel, se recusando a pagar aluguel. “Disse que tinha comprado o apartamento por R$ 2 mil ao síndico”. Agnaldo perdeu a causa, contratou um advogado para tentar a apelação, e, no ano passado, a Justiça determinou a restituição de posse. Durante os dois anos e meio de espera, o aposentado pagou aluguel e continuou morando no Holiday, onde permanece até hoje.
 
Vieira preferiu não comentar o assunto e nos passou o contato do advogado Roberto Nunes, que presta serviço ao condomínio. De acordo com Nunes, a falta de controle de entrada e saída de pessoas provoca invasões e o síndico tenta restituir os bens aos proprietários. “Ali é um entra e sai constante de traficante, rapariga, veado. É uma desgraça. Tudo de podridão tem lá. Você conta nos dedos as pessoas de bem como Vieira”. Em relação à ação movida por Luzineide, o advogado afirma que o grupo que se juntou a ela foi beneficiado pela gestão arbitrária do síndico anterior, que distribuiu apartamentos no edifício. “Quando assumiu o cargo, Vieira tentou reaver os imóveis para os seus proprietários”. E continua: “Em nenhum dos casos citados houve comprovação documental da ligação dele com essas negociatas. O que pesou foram os depoimentos”.
 
Sucesso e decadência marcam tanto na história de Vieira quanto a do Holiday. Ícone da arquitetura moderna do Recife, o primeiro arranha-céu de Boa Viagem foi inaugurado em 1957, voltado para tradicionais famílias pernambucanas. A convenção do condomínio determinava que os proprietários não poderiam “alugar ou ceder salas e apartamentos a pessoas de vida duvidosa”. A 50 metros da praia, já sem vista do mar, hoje o gigante exibe um brilho desbotado no céu da banda Sul.
 
Há cinco anos, a fachada do prédio perdeu seu rosa original para um tom acinzentado, resultado da mistura de cimento e cola branca (“faltou dinheiro para pintar com tinta”, conta Vieira). Corredores e apartamentos apresentam infiltrações, e o mau cheiro gerado pelo lixo acumulado na marquise e na parte traseira do prédio incensam os primeiros andares e estimulam a profusão de ratos e moscas. O tráfico é outro problema denunciado pelos moradores: até quatro meses atrás, conviviam com uma boca de fumo no 1º andar.
 
Vieira conta que também teve seus anos de glória. Filho de pai português com uma brasileira, foi o quinto de 18 rebentos (quatro falecidos). Por falta de condições financeiras da família, diz que acabou indo morar com o padrinho, que possuía uma padaria no bairro de Santo Antônio. Vieira trabalhou lá até os 16, quando os pais adotivos morreram e ele voltou para a família biológica. Pouco mais de um ano depois, revela, foi convocado pela Aeronáutica.
 
Na Força Aérea, passou a integrar o time de futebol e participar de competições em diversos estados. No Rio de Janeiro, em 1956, conta que sua atuação foi vista pelo então técnico do Fluminense, Zezé Moreira, que o convidou para integrar o time carioca. Pelos 25 mil cruzeiros ofertados, Vieira decidiu se dedicar ao futebol. Ele afirma que atuou como quarto zagueiro da equipe durante uma década. Festas, viagens internacionais, hotéis luxuosos, mulheres. Foi nessa época que implantou o dente de ouro, um dos poucos permanentes da boca. “Era um charme”. A carreira, segundo ele, foi interrompida depois de um incidente envolvendo um ídolo do Flamengo, Tomires. Durante um Fla-Flu no Maracanã, Vieira teria atingido o joelho do jogador, resultando no rompimento da rótula: “Saí do Rio fugido para não ser morto pela torcida”. O historiador do Flamengo, Bruno Lucena, questiona o ocorrido. De acordo com ele, Tomires continuou jogando depois de todas as partidas Fla-Flu, o que não seria possível se tivesse rompido a rótula.
 
Do Rio, Vieira foi para o Feira de Santana, da Bahia. O salário diminuiu mais de 50%. Os amigos das farras de outrora desapareceram. Dois anos mais tarde, começou a cruzar as fronteiras estaduais como caminhoneiro, profissão que garantiu a sobrevivência por seis anos. Em Irecê (BA), conheceu a falecida esposa e voltou para o Recife, onde passou a atuar como comerciante do ramo de construção. Não recebeu herança do padrinho rico nem dos pais biológicos e evita falar sobre o assunto. Em 2001, se aposentou. “Deixei de ser estrela para viver na merda”. Não há fotos da fase áurea e nem as pessoas mais próximas, como a filha, sabem muito sobre esse passado. “Ele não gosta de falar sobre essa época”.
 
Entre os companheiros mais próximos do síndico estão outros ex-famosos que amargam o anonimato no Holiday: o ex-bailarino Salatiel Francisco Lago e o marinheiro aposentado Denio Saboya. Salatiel se autoproclama o primeiro bailarino negro a se apresentar no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Denio conta que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1988 por integrar a Missão Suez em Israel entre 1966 e 1967. Hoje, ajuda na portaria do Holiday.
 
Vieira tem uma namorada, que preferiu não ser identificada e nem conversar com a reportagem. “Ela é fina. Namora com ele há 20 anos, mas nunca pisou aqui”, brinca Carlinhos. O síndico só sai do prédio quando vai até a casa dela, nos fins de semana, ou quando precisa comparecer à audiências na Justiça.
 
“Nunca ganhei um centavo aqui”, diz ele, que se declara um voluntário do prédio. Proprietário de quatro apartamentos no edifício, afirma que vive do aluguel dos imóveis e da aposentadoria de R$ 2 mil. E recorre a palavras como “ingratidão” e “comodismo” para definir o comportamento dos moradores que criticam sua gestão. “Podem falar o que quiserem. Mas ninguém me derruba”.

Fonte: http://aurora.diariodepernambuco.com.br/

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